A última dança de Lula numa eleição movida a rejeição

Por Luiz Fernando Lima – Jornalista

Há um dado, na pesquisa Realtime BigData, que funciona como uma espécie de raio-x do humor do eleitor brasileiro às vésperas do primeiro turno. Perguntado sobre o que mais pesa na hora de decidir seu voto, 32% dos entrevistados não falam em programa de governo, não citam nome de candidato, não mencionam sequer uma pauta específica. Respondem que querem impedir que determinado grupo político volte ou continue no poder. É a resposta isolada mais votada, à frente até de “mudar os rumos do Brasil”, que fica com 22%. Somados, os dois motivos formam mais da metade do eleitorado movido, antes de tudo, por uma negação.

O retrato ganha contorno ainda mais nítido quando se olha para outra pergunta do mesmo levantamento, sobre o que o Brasil precisa neste momento. Ali, 26% dizem que é preciso fazer mudanças importantes e 32% vão além, defendendo que é necessário mudar completamente a forma como o país está sendo governado. Juntas, essas duas respostas somam 58%, quase seis em cada dez entrevistados pedindo ruptura, parcial ou total, com o modelo atual. Do outro lado, os que preferem manter o caminho como está (25%) somados aos que toleram apenas alguns ajustes pontuais (15%) chegam a 40%. A distância entre os dois campos, quase 18 pontos, é grande demais para ser tratada como ruído estatístico. Ela descreve um país que já decidiu, em tese, que quer virar a página, mesmo sem ter decidido ainda com quem.

É nesse vácuo entre o desejo de mudança e a falta de um nome capaz de encarná-la que Augusto Cury aparece como o fato novo da rodada. Na pesquisa estimulada sem Pablo Marçal, ele salta para 11% das intenções, um patamar que soa modesto até se lembrarmos que, há poucas semanas, ele mal figurava no radar. E aqui vale abrir um parênteses de método, porque o movimento não é exclusividade da Realtime BigData. A Atlas/Bloomberg, na mesma janela, mostrou Cury saindo de 1,6% em julho para 7,8% agora. A BTG/Nexus captou uma variação ainda mais abrupta, de 2% no dia 24 de agosto para 11% em apenas uma semana, os mesmos 11% que a Realtime BigData registra no fechamento de agosto. Já Datafolha e Quaest, cujo campo fechou mais cedo no mês, ainda o mediam em 2%, o que só reforça que o movimento aconteceu especificamente nos últimos dias de agosto.

A leitura mais honesta desses números não é que Cury vive uma ascensão consolidada, é que ele parece ter atravessado um ponto de inflexão que ao menos três institutos, com metodologias distintas, passaram a flagrar quase ao mesmo tempo. Quando pesquisas concorrentes, sem qualquer combinação entre si, apontam para a mesma direção na mesma semana, o episódio deixa de ser peculiaridade de um instituto e passa a ser fato político. Para além disso, o candidato passou a ser alvo de “ataques” de “torcedores” dos dois polos da eleição. É um fenômeno que uniu extrema-direita e esquerda.

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E a votabilidade do escritor ajuda a explicar por que essa inflexão tem fôlego para continuar. Do universo pesquisado, 41% dizem que poderiam votar nele, o segundo maior índice de aceitação entre os nomes testados, atrás apenas de Ronaldo Caiado. Sua rejeição, de 24%, também está entre as mais baixas do grupo testado. Cury ainda carrega um problema de reconhecimento, 29% dizem não conhecê-lo o suficiente para opinar, mas é justamente esse desconhecimento que, paradoxalmente, se converte em capital político num cenário saturado de rejeição aos nomes mais expostos.

Porque rejeição, aqui, é a palavra que resume o momento. Na pergunta sobre quais candidatos o eleitor não votaria de jeito nenhum, Lula e Flávio Bolsonaro empatam no topo, 50% cada. Metade do país descarta, hoje, os dois nomes que lideram a corrida. É um resultado que por si só já sustentaria a tese de que esta é uma eleição de derrota do outro mais do que de vitória de alguém, mas ele fica ainda mais interessante quando se abre a motivação de voto por candidato.

Ali a fotografia se revela mais complexa do que parece à primeira vista. Somando quem vota “porque rejeito os adversários” com quem vota “porque é o menos ruim entre as opções”, o eleitor de Cury lidera esse ranking do voto negativo, com 51%. Logo atrás vem o eleitor de Caiado, com 45%. Flávio soma 39%, Zema 37%, Marçal 30%. O eleitor de Lula, por outro lado, é o que menos se enquadra nesse perfil, apenas 21% votam nele por rejeição ou como mal menor, enquanto 54% dizem votar porque gostam do candidato ou concordam com suas ideias.

O que esse contraste revela não é que a tese do voto por rejeição esteja errada, é que ela precisa de um endereço mais preciso. Lula ainda mantém um piso de adesão genuína que nenhum outro nome no tabuleiro conseguiu construir. A rejeição é o combustível que move sobretudo o campo que disputa espaço fora do lulismo consolidado, e é exatamente essa dinâmica que explica por que esse campo segue fragmentado. Cada candidato de oposição carrega uma parcela de eleitores que o escolhe menos por convicção e mais por cálculo, o que torna qualquer um deles vulnerável a perder terreno para o próximo nome que aparecer como alternativa mais palatável. Foi o que aconteceu com Cury nos últimos dias de agosto. Pode acontecer de novo, com outro nome, nas próximas semanas.

Apesar da fragmentação e do voto por rejeição que movem boa parte do campo de oposição, Lula segue favorito na fotografia atual da corrida. Ele lidera o cenário de primeiro turno em praticamente todas as pesquisas divulgadas até aqui. A própria Realtime BigData confirma o padrão. Mesmo com Flávio Bolsonaro tecnicamente empatado no segundo turno direto, e desconsiderando aqui o resultado pontual contra Caiado, o petista aparece à frente com folga no cenário estimulado com nomes.

Essa força tem raiz antiga. Lula venceu três eleições presidenciais, em 2002, 2006 e 2022. Foi peça decisiva nas duas vitórias de Dilma Rousseff, em 2010 e 2014. É o nome mais experiente do tabuleiro, candidato à Presidência pela oitava vez, contando a candidatura barrada de 2018. A isso se soma um apelo emocional que ele mesmo cultiva em entrevistas e eventos públicos, o de que esta seria sua última corrida ao Planalto. O discurso do “the last dance” tende a funcionar bem com um eleitorado que já o conhece há décadas e que associa seu nome a um ciclo político prestes a se encerrar.

Outros fatores estruturais reforçam essa vantagem. A rejeição de Flávio Bolsonaro segue elevada em praticamente todas as pesquisas, um obstáculo que ele ainda não superou. Augusto Cury, por sua vez, segue esbarrando na mesma barreira do desconhecimento já mencionada, um problema que o tempo de campanha ainda pode resolver, para o bem ou para o mal. O tempo de TV já favorece o incumbente. O horário eleitoral gratuito começou em 28 de agosto e segue até 1º de outubro, justamente o período em que o recall acumulado e os palanques estaduais pesam mais a favor de quem já ocupa o cargo.

Há ainda um fator declarado, e não de bastidor, que merece registro. O Centrão segue sem fechar posição em diversos estados, um silêncio público, assumido abertamente por lideranças partidárias, e que evita, por enquanto, uma frente de oposição mais coesa contra o governo. Some-se a isso o equilíbrio regional identificado na pesquisa. A liderança do petista no Nordeste é expressiva. A região concentra 43,5 milhões de eleitores, 27,42% do total nacional. É um contingente maior que Sul e Centro-Oeste somados, que juntos chegam a 34,8 milhões, ou 21,96%. Essa base regional funciona como um piso difícil de corroer, mesmo em cenários de maior desgaste nacional.

O quadro que emerge, portanto, é o de uma vantagem menos dependente de entusiasmo e mais sustentada por fatores estruturais. Experiência, tempo de exposição, fragmentação do adversário e geografia eleitoral formam um conjunto que a simples volatilidade de curto prazo, como a de Cury em agosto, ainda não conseguiu abalar.

Por trás desses números frios existe um diagnóstico mais desconfortável, que os indicadores de humor social da mesma pesquisa só confirmam. Para 52% dos entrevistados, o Brasil caminha na direção errada. Para 52%, a vida hoje está igual à de dois anos atrás, nem melhor, nem pior, apenas estagnada. E quando perguntados sobre o quanto já pensaram em quem votar, 69% responderam pouco ou nada. A política brasileira chega a outubro sem ter convencido a maioria de que vale a pena sonhar com ela. Resta o cálculo do menos pior, a aposta na derrota do adversário, o voto como ato de contenção e não de esperança. Não é a primeira vez que o país vota assim. Mas é um grito de alerta para a classe política que precisa descobrir como reconstruir a ponte com o mundo real, com as pessoas reais.

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