“Vou conseguir me aposentar e aproveitar a vida?”: confira desafios da administração na longevidade financeira

A aposentadoria costuma ser imaginada como uma linha de chegada. Depois de décadas de trabalho, espera-se o tempo livre, a viagem adiada, a manhã sem despertador, a mesa farta e a possibilidade de finalmente escolher o que fazer com as horas do dia. Para Lucinéia de Souza Gomes, de 63 anos, a conta não fecha exatamente assim.

O benefício, que chegou depois de mais de 30 anos como gerente de Recursos Humanos da Bahia Pesca, não permitiu que ela simplesmente parasse. O valor ficou próximo da metade do salário que recebia quando estava na ativa e precisou ser dividido entre as despesas que chegam todo mês. Só os medicamentos representam uma parcela importante desse orçamento. “Um remédio que eu tomo é quase R$ 300. Então, vamos dizer que sejam uns R$ 700 por mês”, calculou, referindo-se aos gastos mensais.

Ainda, ela precisa arcar, entre os muitos gastos, com energia elétrica, combustível do carro, condomínio e compras feitas no cartão. “Quando você compra tudo no crédito, ao chegar a fatura, já foi boa parte do dinheiro”, pontuou. Lucineia trabalha atualmente no setor de Recursos Humanos da Fundação Luiz Eduardo e afirma que apenas a aposentadoria não lhe
oferece tranquilidade financeira necessária para que pudesse dedicar tempo apenas aos planos pessoais, que vem adiando desde muitos anos.

“Se eu tivesse uma aposentadoria boa e pudesse ficar sem trabalhar, eu ficaria, porque eu ia viajar e curtir, não ia ficar sem fazer nada. Eu ia pegar esse horário vago e fazer muita coisa”, retrucou. “Hoje, a maioria das pessoas aposentadas trabalham por necessidade financeira, a não ser que tenha outros meios de não precisar trabalhar, como herança ou aluguéis. Para mim, a renda seria insuficiente”, continuou.

O caso de Lucinéia não é isolado. Uma pesquisa realizada pelo Serasa, com 1.052 aposentados ou pessoas próximas da aposentadoria, aponta que 64% consideram o benefício insuficiente; 53% continuam trabalhando; e 60% já recorreram a crédito ou empréstimos para despesas essenciais.

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Desafios geracionais

Para Sérgio Batista, gerente de Análise e Planejamento Financeiro do Banco Mercantil, instituição especializada no atendimento ao público 50+, com foco em aposentados, pensionistas e em pagamento de benefícios do INSS, o principal desafio desse público é gerir a própria renda. “Quando uma pessoa se aposenta, isso altera o fluxo de caixa dela, porque muitas vezes reduz a renda disponível, enquanto as despesas com saúde e bem-estar tendem a crescer”, afirmou.

Segundo ele, a organização, nessa fase, deve priorizar a preservação do poder de compra e o acesso a serviços que contribuam para a qualidade de vida, e não apenas a disponibilidade de dinheiro. “O preparo financeiro dessa geração ainda enfrenta o desafio cultural de transitar de uma fase de acumulação para uma fase de estabilidade e preservação. Muitos brasileiros, infelizmente, chegam à maturidade sem um planejamento estruturado de longo prazo, o que torna a educação financeira e o acesso consciente a soluções de crédito fundamentais para garantir a segurança financeira nessa etapa”, disse ele.

Entre as pessoas com 50 anos ou mais, 34% afirmaram gastar mais do que recebem, enquanto dois em cada três brasileiros dizem não possuir reserva para a aposentadoria, conforme aponta o Indicador de Longevidade Pessoal (ILP), em seu recorte mais recente, de outubro de 2025, desenvolvido pelo Grupo Bradesco Seguros em parceria com o Instituto Locomotiva. A população mais velha, no entanto, apresenta maior hábito de poupança: 41% possuem algum fundo financeiro, contra 31% dos jovens.

O levantamento apontou, ainda, diferenças regionais. A média nacional do indicador foi de 61 pontos, com São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná acima desse resultado. A Bahia alcançou a mesma pontuação da média brasileira, mas ainda enfrenta percalços: 70% dos participantes relataram possuir algum tipo de dívida, evidenciando dificuldades de planejamento e de organização financeira. Ainda, seis em cada dez só começaram a se organizar apenas nos cinco anos que antecedem a aposentadoria. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), vale destacar, projeta que, em 2050, cerca de 30% dos brasileiros – mais de 66 milhões de pessoas – terão idade acima de 60 anos.

Planejamento e organização financeira

Enquanto o planejamento costuma ser deixado para os anos que antecedem a aposentadoria, Alex Laurentino, de 33 anos, decidiu começar bem antes. Servidor público federal, ele conta que a preocupação com o futuro surgiu ainda no primeiro emprego, quando começou a estudar sobre investimentos para o futuro. No entanto, tais estratégias ganharam um direcionamento mais específico quando ele completou 30 anos.

“Hoje, possuo três tipos de planos voltados para a previdência. O primeiro é o tradicional, o INSS, descontado em folha. O segundo é a aposentadoria complementar específica para servidores públicos, em que é deduzido 8,5% da remuneração em folha de pagamento para investimento com retorno na data da aposentadoria. O terceiro eu faço em corretora de investimento, no título do governo recém lançado chamado Tesouro Renda+ Aposentadoria Extra, com investimento mensal assim que recebo o salário”, detalhou.

O objetivo não é deixar o mercado de trabalho antes da hora, mas chegar à aposentadoria com uma renda mais confortável. Pelas regras atuais, Alex poderá se aposentar aos 65 anos pela previdência oficial, enquanto o título público em que investe mensalmente tem vencimento previsto para 2055, quando ele terá 62 anos.

“Meu planejamento não é voltado para ter a sonhada liberdade financeira por investimento antes da aposentadoria oficial, pois isso exige um aporte muito alto e fora da realidade de inúmeros brasileiros, inclusive a minha. Então, meu planejamento é justamente para ter uma aposentadoria melhor quando chegar minha hora”, explicou o servidor.

Em relação a essa aposentadoria melhor, José Roberto Barbosa Silva afirma viver de forma mais equilibrada e tranquila. Ele deixou o trabalho há dois anos, quando se aposentou aos 65, e hoje vive exclusivamente do benefício, que permitiu uma mudança importante na rotina: desacelerar. Antes, passou por empregos formais e também empreendeu, mantendo uma loja de aluguel de roupas para casamentos e formaturas. Agora, decidiu ficar mais sossegado. “Eu resolvi não fazer muita coisa. Resolvi administrar a minha vida com aquilo que eu tenho”.

A rotina, então, passou a ser organizada sem a obrigação de cumprir uma jornada de trabalho. José acorda às 5h, vai à academia, e ainda pela manhã, se dedica a ler a Bíblia. Depois, tira um cochilo após o almoço. À noite, participa das atividades da igreja, onde canta e ensaia com o grupo de música. Priorizar a saúde também ganhou espaço nessa nova fase. “Quanto mais a idade vai avançando, mais a gente precisa cuidar da saúde”, comentou.

Quando pode, aproveita ainda para correr na praia e viajar – um de seus hobbies favoritos. “No ano, eu faço pelo menos duas viagens”, evidencia. Entre os destinos que costuma frequentar estão Sergipe e a Linha Verde. Agora, planeja conhecer Natal.

É importante ressaltar que o envelhecimento da população representa um dos principais percalços para a Administração brasileira, ao modificar a dinâmica do mercado de trabalho, do consumo e da oferta de serviços.

Desafio de administrar a longevidade

A administradora Fernanda Ayala destaca a necessidade de governos e empresas se prepararem para uma sociedade com mais idosos e menos jovens em idade produtiva. “Gestores públicos e privados precisam repensar suas estratégias de planejamento, gestão de pessoas, saúde, previdência, mobilidade, infraestrutura e atendimento ao consumidor. Empresas também precisarão adaptar seus produtos, serviços e ambientes para atender às necessidades desse público crescente”, afirmou.

Ela defende que os governos devem fortalecer os sistemas de saúde e previdência, criar cidades mais acessíveis e inclusivas, incentivar políticas de envelhecimento ativo e promover programas de qualificação profissional voltados para pessoas com mais de 50 anos. Já no setor privado, aponta a necessidade de investir na valorização de profissionais mais experientes, combater o preconceito relacionado à idade (etarismo), desenvolver produtos e serviços direcionados ao público idoso, adaptar ambientes físicos e digitais para garantir acessibilidade e ampliar programas de bem-estar e qualidade de vida.

Fernanda ressalta também que há um crescimento do empreendedorismo sênior, permitindo que pessoas aposentadas iniciem novos negócios, monetizem seus conhecimentos e permaneçam economicamente ativas. “Por meio de um planejamento eficiente, boa gestão de recursos e inovação, é possível desenvolver ambientes acessíveis, serviços de qualidade, oportunidades de trabalho, programas de saúde preventiva e ações que incentivem o envelhecimento ativo”, comentou.

De acordo com a profissional, o Brasil vive uma transição demográfica que deve se intensificar nas próximas décadas. “Esse cenário impulsiona a chamada economia pratead (Silver Economy), que reúne todos produtos, serviços e negócios voltados às pessoas com mais de 50 anos, movimentando bilhões de reais todos os anos, e que tende a crescer, criando
novas oportunidades para empresas, empreendedores e gestores”, contou.

Por fim, ela ressalta que a idade mais avançada deve ser vista não apenas como um desafio. “O envelhecimento da população representa uma oportunidade para inovar, gerar novos negócios, desenvolver políticas públicas mais eficientes e construir uma sociedade mais inclusiva para todas as idades”, concluiu.

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