Ser mulher é o quê mesmo?

Rolando o meu feed na última semana, senti o espírito da minha avó sentado ao meu lado, como se estivéssemos juntas assistindo TV. Na tela, Ratinho falava sobre o que é ser mulher. Assisti atentamente, hipnotizada, num misto de estranho saudosismo e com o coração de 36 anos indignado. Pensei que Hebe Camargo, se estivesse viva, teria rebatido as falas do colega. E vovó, por ser fã dela, talvez concordasse.

Mas, então, o que é ser mulher? Perguntei a mim mesma depois de ver esse homem falando sobre quem deve ocupar esse espaço de fala. A mulher que gesta? Que menstrua? Que é mãe? Então, somente estas sabem sobre ser mulher? É só isso que nos define?!

Ser homem, ser mulher, é um constructo social que está mais ligado à aparência e a símbolos. E não sou eu que estou dizendo isso: foi a escritora Simone de Beauvoir, a filósofa Judith Butler, o sociólogo Erving Goffman…

Eu não sei em que momento o Brasil que eu amo deixou de respeitar os estudiosos para dar legitimidade à opinião e à fobias. Dia desses, vi uma pessoa falando que o problema do nosso país não é censura alguma, é justamente a liberdade demasiada de se falar o que quer e ter espaço para isso.

“Ah, mas ele falou numa boa, não foi desrespeitoso ou transfóbico.” Como não? Pelo tom de voz sedoso? Tom de voz harmonioso não dá direito a ninguém de cometer crime, pior ainda em rede nacional, na TV aberta. Tem armas que não fazem barulho e matam muito mais. E, pelo caminhar da humanidade, eu espero que uma bala silenciosa dessas não dispare na sua casa, na cara de um filho seu, que seja gay, que seja trans.

Enquanto isso, a deputada Erika Hilton trabalha em prol da dignidade menstrual para mulheres, apresenta propostas que ampliam o combate à violência, que garantem os direitos reprodutivos e que fortalecem políticas públicas para diferentes grupos de mulheres. Ou seja, deveria nos interessar, sobre quem ocupa a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, a sua capacidade, empatia e inteligência com a pauta, e não o que tem dentro de suas saias.

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Terena Cardoso é psicóloga, pós-graduada em Neurociências e Comportamento. Possui mais de oito anos em atendimento clínico e o seu trabalho tem como foco o atendimento terapêutico individual para adultos e adolescentes.

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