Pular para o conteúdo
Noticiário Baiano - Jornalismo com independência e Credibilidade
Canal do Zap
Artigos

O efeito pedagógico do fim da escala 6×1

Por Gabriel Silva•
O efeito pedagógico do fim da escala 6×1
Crédito: Divulgação
WhatsAppFacebookInscreva-seEntrar no Canal do WhatsApp
Ouvir notíciaPronto para ouvir
00:00 / --:--
00:00--:--

Sempre ouvi de minha mãe que “trabalho deve ser meio de vida e não meio de morte”, a sabedoria materna registrava para os filhos que trabalho, por mais importante que seja para o ser humano, precisa de respiro, descanso e momentos de prazer.

O ritmo acelerado da vida, a cultura de ocupar todo o tempo com as mais diversas atividades da sobrevivência, as críticas ao ócio e a necessidade de acumulação de bens e capital, fez com que parte dos seres humanos sobrecarregasse a sua existência e limitasse o viver para o trabalho. Como consequência direta, temos o adoecimento físico e mental, a ausência de momentos com as famílias, a simples contemplação da natureza e a substituição dos momentos de descanso por breves cochilos nos transportes coletivos, muitas vezes até em pé.

O Adoecimento Social e a Exaustão

Retrato fiel da exaustão é o adoecimento social, a mutilação da esperança, a robotização das tarefas que dão prazer, que faz da existência das pessoas se assemelhar ao ligar e desligar de uma máquina. Antes que apontem que este texto pode parecer uma apologia à preguiça, quero deixar registrado que sempre sou apontado como viciado em trabalho, o que nada mais é do que a materialização do que escrevo; aqui, portanto, pode ser uma autoanálise crítica e reflexiva.

A semana histórica de outubro do ano cristão de 2026 foi marcada por noticiários que registraram o fim da escala de trabalho de milhões de brasileiros que laboram seis dias por semana e têm direito a um dia de folga, os trabalhadores com registro CLT. No entanto, deixa de fora outros milhões de brasileiros que trabalham na informalidade, nas colocações que foram “Uberizadas”: para tais trabalhadores, a escala de trabalho continuará 7 por 0, informais, sem carteira assinada, sem férias, sem décimo terceiro e sem qualquer seguro trabalhista.

Entre o Capital e a Humanização

Para os princípios capitalistas, para o pensamento protestante que associa trabalho a dignidade, onde “sem trabalho o homem não tem honra”, para o sentido frio das relações comerciais e empresariais, o início de qualquer escala de trabalho que favoreça a classe trabalhadora pode soar como direito demais, folga demais e custos em demasia. Ao mesmo tempo, para quem defende a menor intervenção do Estado possível, tais excessos de direitos deixam o Brasil como um “paraíso para os preguiçosos”, sim, muitos pensam assim e atualmente se sentem com coragem para externar tais pensamentos.

Se a CLT Getulista de primeiro de maio de 1943 levantou vários movimentos e pensamentos retrógrados de estagnação da economia brasileira, desemprego em massa e prejuízo para a nação, que a escala 5×2 de outubro de 2026 represente um olhar mais humanizado para as relações trabalhistas no nosso país. Resolve tudo? Não! Educa? Tomara.

A nossa esperança é que passemos a pensar em quem ficou de fora, para quem as escalas de trabalho são ininterruptas, para as mulheres que trabalham por 24h dentro e fora de casa, e para os trabalhadores invisibilizados.

Para uma nação com tantos ranços e resquícios escravocratas, onde o valor da prestação de serviços não é devidamente monetizado, ter escalas de trabalho flexíveis e humanizadas parece direito excessivo, pois nas relações capitalistas o lucro sempre vem à frente.

Não é apenas uma escala de trabalho, é a valorização dos trabalhadores. Afinal, “guerreiros são pessoas, são fortes, são frágeis, precisam de um descanso…”

 

Por Professor Manoel Calazans – Mestre em Politicas Sociais e Cidadania