Eu tenho uma amiga que passou por uma relação abusiva clássica. O cara, no começo, era maravilhoso e apoteótico. Para vocês terem ideia, com pouco tempo de namoro, escolheu um dos maiores cartões-postais da Bahia para pedi-la em casamento. Por acaso, nesse mesmo período, que era de férias, nos encontramos no mesmo lugar. Eu e minha namorada os convidamos para sairmos todos juntos. A minha amiga nem respondeu à mensagem.
Achei estranho, mas deixei pra lá. Comecei a notar a ausência dessa amiga nos ciclos de amizades. Resolvi investigar e soube que vinha passando maus bocados com o cara, mas não me deram muitos detalhes. Fiquei sentida, pois eu sabia como ela era uma pessoa inteligente. Mas me reservei à insignificância, contando que ela seria esperta o suficiente para sair sozinha daquela situação.
Corta para quase um ano depois, quando nos encontramos em um curso de formação profissional. Ofereci-lhe uma carona e, no caminho, contei que havia passado por uma situação bem pessoal e ela aproveitou o momento da
minha partilha e respondeu: “Eu também passei por algo que quero compartilhar. Terminei com fulano.” Nesse momento, respondi de maneira muito sincera: “Amiga, eu não sei o que aconteceu, mas estou aqui para você”. Daí pra frente veio o show de horrores e de como ela se sentiu sozinha esse tempo todo.
Os roubos, os danos materiais, emocionais, a pressão estética e todo tipo de violência psicológica… “Você é gorda”, “Você é piranha”, “Ninguém gosta de você”, “Suas amigas devem estar caçando homem aqui, não vamos sair com aquelas put#s”. Além de idiota, é burro, não soube nem interpretar que éramos um casal naquelas férias…
A minha amiga se sentiu confortável para desabafar e contar tudo o que passou. Naquele momento, vi todo o meu arcabouço teórico na prática: uma mulher fica numa relação abusiva por um misto de sentimentos que envolve vergonha, impotência e falta de apoio. É difícil sair e encarar toda uma realidade aqui fora. E eu sei que ela teve quem quisesse fazê-la enxergar o que estava acontecendo. “Mas eu não estava pronta ainda e as pessoas eram hostis quando conversavam comigo”, ela me disse.
Tudo o que minha amiga viveu é um baita alerta para uma relação perigosa, pois nem toda violência deixa marcas visíveis no corpo. Muitas vezes, ela começa em frases aparentemente pequenas, críticas constantes, comentários que diminuem, em um controle disfarçado de cuidado. Aos poucos, aquilo que parece apenas um incômodo passa a afetar a liberdade e a saúde emocional da pessoa. Foi o que ela viveu.
A chamada violência psicológica é uma das formas mais comuns e também mais difíceis de identificar dentro de relacionamentos abusivos. Porque toda relação pode ter momentos de toxicidade, mas ela se qualifica como abusiva quando a pessoa não muda. A esperança na melhora do outro precisa ter um limite. A minha amiga, infelizmente, se perdeu nessa percepção.
Na prática clínica, é comum observar mulheres na tentativa infinita de agradar. E, infelizmente, algumas chegam até a sofrer agressão física e não conseguem terminar a relação. Porque acreditam na mudança ou porque não podem, por dependência emocional, financeira etc. A falta de apoio é uma das principais causas desses relacionamentos permanecerem por longos períodos. E, frequentemente, mulheres que costumam sumir quando começam a namorar são as vítimas mais fáceis.
Se você tem passado por isso, a dica maior aqui é: cadê seus amigos? Onde estão aqueles que podem lhe ajudar? Cadê as pessoas que te amam para chamar a sua atenção quando você está vacilando? Achar que podemos viver sozinhos é um risco enorme à nossa saúde mental. A gente evolui em bando e é com ele que precisamos contar no momento de aperto. Eu queria ter prestado meu apoio à minha amiga mais cedo…
Em casos extremos, precisamos lembrar que a violência psicológica é reconhecida na legislação brasileira. A Lei Maria da Penha define esse tipo de violência como qualquer conduta que cause dano emocional, diminuição da autoestima ou que vise controlar comportamentos, crenças e decisões da mulher. Isso te dá a possibilidade de denunciar, solicitar medida protetiva e punir o abusador.
Falar sobre violência psicológica é, sobretudo, uma forma de prevenção. Antes que a violência física aconteça, geralmente existe um histórico de desrespeito emocional, manipulação e perda gradual de autonomia. Se você está vivendo isso, busque ajuda. Se você tem uma amiga assim, seja suporte, ainda que distante. Mande uma mensagem: “Amiga, estou longe, mas estou aqui para o dia que você precisar”. Ela precisa saber que você sabe que o contexto é maior, perigoso, mas que ela tem você.
Relacionamentos saudáveis não são construídos sobre medo, humilhação ou controle. Ninguém com saúde mental “em dia” escolhe isso.
* Terena Cardoso é psicóloga, pós-graduada em Neurociências e Comportamento. Possui mais de oito anos em atendimento clínico e o seu trabalho tem como foco o atendimento terapêutico individual para adultos e adolescentes.






