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João Gomes perde a senha, Claudia Leitte extravasa e joga o voto pro ar, e os reis do axé e do pagodão? Esses estão no modo avião

Por Diego Vieira•
João Gomes perde a senha, Claudia Leitte extravasa e joga o voto pro ar, e os reis do axé e do pagodão? Esses estão no modo avião
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Há quem transforme o palco em espaço de manifestação política. Há quem precise recorrer a um papel para dizer o que pensa. E há quem, mesmo diante de uma eleição que mobiliza o país, consiga permanecer confortavelmente fora da discussão. Enquanto alguns artistas dão a cara a tapa, vão às ruas e publicam seus posicionamentos, outros parecem preferir que o assunto não entre no repertório. E é justamente essa diferença de comportamento, e principalmente de cobrança, que chama minha atenção.

E, por falar em posicionamento, o cantor João Gomes, uma das vozes mais marcantes da nova geração da música brasileira, protagonizou uma cena curiosa nos últimos dias. Depois de uma enxurrada de cobranças por posicionamento político, João resolveu falar. Mas, em vez da espontaneidade, o público viu um artista trêmulo e lendo um discurso durante um show em Londrina, no Paraná.

Falou sobre educação, saúde pública, cotas universitárias, democracia e liberdade de expressão. Temas importantes, necessários e que merecem ser defendidos. Mas, convenhamos, a forma chamou tanto a atenção quanto o conteúdo.

João precisou recorrer a um texto escrito para responder a uma pressão que já havia ultrapassado os limites das redes sociais. E olha que estamos falando do cantor de “Eu Tenho a Senha”. Mas, pelo visto, na hora de se posicionar politicamente, a senha não veio de cabeça. Foi preciso apelar para o papel.

O resultado foi um discurso frio, engessado e pouco natural. E, embora tenha abordado questões relevantes, faltou objetividade naquilo que muita gente esperava ouvir: um posicionamento eleitoral mais claro. Foi quase um “falou, falou e não disse nada” para quem aguardava uma declaração de voto. E, se a intenção era conquistar o “dengo” de parte dos seguidores, especialmente daqueles que cobravam apoio explícito a Lula, a apresentação parece não ter sido suficiente. Para alguns, aliás, o título de outra música do cantor, “Mete um Block Nele”, nunca pareceu tão oportuno diante da repercussão. Prova disso é que, em meio à polêmica, o artista teria perdido mais de 100 mil seguidores no Instagram.

Faço questão de deixar algo muito claro: sou, sim, daqueles que acreditam que artistas precisam se posicionar politicamente, sobretudo agora, quando o Brasil atravessa uma eleição tão polarizada. Quem tem milhões de fãs e seguidores, influencia comportamentos, movimenta multidões e ocupa um espaço de enorme visibilidade. E não estou falando de obrigar ninguém a declarar voto. Estou falando de responsabilidade social mesmo. De compreender que a influência de um artista não termina quando o show acaba.

No entanto, algo além disso me incomoda: a seletividade dessa cobrança.

E, para entender isso, vamos deixar o menino João um pouco de lado e desembarcar na Bahia.

A cantora Claudia Leitte, por exemplo, é alvo de questionamentos recorrentes sobre suas preferências políticas. E isso não é de hoje. Frequentemente apontada como simpatizante do bolsonarismo, a artista, que tem uma forte relação com o público LGBTQIAPN+, já enfrentou diversas críticas por não declarar publicamente seu voto. E, como se não bastasse a polêmica, até seu título de eleitor entrou no repertório.

Uma suposta consulta à situação eleitoral da cantora, compartilhada nas redes sociais, aponta que seu título estaria cancelado. A informação, no entanto, não foi confirmada oficialmente.

Mas, caso seja verdadeira, Claudia pode ter levado o próprio repertório a sério demais. Extravasou, jogou tudo pro ar e, pelo visto, até a regularidade eleitoral dançou. Se a situação for confirmada e a cantora realmente tiver preferência por Flávio Bolsonaro, como especulam seus críticos, o candidato não poderá contar com o voto dela. Nesse caso, quem ficaria “Largadinho” seria o voto, que nem chegaria à urna. Será que Claudinha roeu a corda do “Caranguejo”? Agora só resta a loira saudar Iemanjá ou cantar para o rei Yeshua e aguardar o resultado das urnas.

E ainda falando nas musas do axé, Ivete Sangalo também não escapa das cobranças. Ao contrário de Claudia Leitte, Veveta teve a “Sorte Grande” de cair nas graças de suas “Crias”, ou melhor, dos apoiadores de Lula, que fizeram a “Festa” após a cantora autorizar o uso de sua imagem na campanha do presidente que concorre à reeleição. Alguns poderiam dizer que Ivete “Abalou”.

Alinne Rosa e Daniela Mercury, então, nem se fala. As duas têm demonstrado cada vez mais envolvimento com o debate político e declarado publicamente apoio a Lula. Já de Margareth Menezes nem precisamos dizer muita coisa, né? Afinal, a cantora ocupa o Ministério da Cultura no governo federal.

Mas aí vem uma pergunta que talvez incomode mais do que qualquer declaração de voto: e os homens do axé e do pagodão baiano, minha gente?

Onde está a mesma intensidade de cobrança direcionada a nomes como Bell Marques, Durval Lelys, Léo Santana, Tony Salles, Márcio Victor e Xanddy Harmonia?

É curioso. Para as mulheres, a cobrança costuma ser muito mais firme. Para determinados homens, basta continuar cantando os sucessos de sempre e sorrindo para as câmeras. O repertório segue animado. O posicionamento político, nem tanto.

Será que estamos diante de mais uma cobrança desigual entre homens e mulheres?

Na contramão desse silêncio, outros artistas baianos decidiram tornar públicas suas posições. É o caso de Igor Kannário e O Kannalha, que estão entre os nomes que vêm demonstrando que o pagodão também pode ocupar espaço nas discussões que vão além da música. E não poderia deixar de citar Carlinhos Brown, que seguiu um caminho um pouco diferente. O artista enfrentou cobranças por um posicionamento político e, depois da pressão, declarou voto em Lula nas redes sociais.

Mas seria injusto falar de posicionamento político na música baiana sem lembrar do que aconteceu no último domingo (18), na Barra, em Salvador. O bairro foi palco de uma manifestação em defesa da democracia e em apoio à reeleição de Lula. Daniela Mercury, uma das principais articuladoras do evento, dividiu espaço com artistas como Gilberto Gil, Russo Passapusso, do BaianaSystem, Rachel Reis, entre outros nomes da música brasileira.

Ah, e por falar em apoio explícito, não podemos esquecer dos artistas que escolheram o outro lado da disputa presidencial.

Surpreendendo um total de zero pessoas, mais de 30 cantores sertanejos se reuniram nesta terça-feira (20), em Goiás, com Flávio Bolsonaro para gravar conteúdos de apoio à candidatura presidencial do senador. Entre os participantes estavam Gusttavo Lima, Zezé Di Camargo, Marrone, Murilo Huff e outros nomes conhecidos nacionalmente.

Seja eleitor de Lula ou de Flávio Bolsonaro, acredito que nem todo cantor precise transformar o show em comício. Mas também não compro a ideia de que a fama deva funcionar como uma espécie de passe livre para se manter distante de qualquer discussão social.

Acredito que, neste momento, o posicionamento dos artistas é necessário. Não porque devam orientar o voto de ninguém, mas porque não considero razoável que pessoas com tamanha influência tratem uma eleição presidencial como se fosse um assunto que não lhes dissesse respeito.