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Igor Kannário botou pra virar: de aliado da direita ao embalo de Lula, o pássaro sai das eleições como águia

Por Diego Vieira•
Igor Kannário botou pra virar: de aliado da direita ao embalo de Lula, o pássaro sai das eleições como águia
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Quem diria que Igor Kannário, aquele mesmo que já protagonizou discussões com a Polícia Militar, colecionou polêmicas no Carnaval e ouviu de parte dos próprios fãs que havia traído a favela, terminaria as eleições de 2026 embalando a vitória de Lula? Pois é. O Príncipe do Gueto resolveu mudar o repertório político. E, pelo visto, não foi só a música que ele botou pra virar.

O cantor, que durante anos esteve ligado ao grupo político de ACM Neto e Bruno Reis, encontrou na campanha petista um novo palco. E não passou despercebido. Enquanto grandes nomes do pagodão baiano, como Léo Santana, Tony Salles, Xanddy Harmonia e Márcio Victor, preferiram acompanhar a disputa presidencial em silêncio, Kannário fez barulho. Ah, deixa eu abrir uma exceção para O Kannalha, que, assim como o Príncipe do Gueto, também deu a cara a tapa nessas eleições ao declarar apoio a Lula. Mas, voltando ao nosso pássaro, ele cantou, colocou o nome de Lula na própria música e viu seu trabalho alcançar novos públicos.

E eu arrisco dizer: Igor Kannário sai dessas eleições maior do que entrou. Diria até que o pássaro saiu dessa disputa como uma águia.

Mas, para entender esse novo voo, precisamos lembrar por onde esse pássaro já passou.

Antes de ser Kannário, Anderson Machado de Jesus era mais um jovem da periferia de Salvador tentando encontrar espaço na música. Passou por grupos de pagode até ganhar projeção à frente da banda A Bronkka. Foi ali que começou a consolidar uma identidade que ultrapassaria os palcos.

Depois, em carreira solo, vieram sucessos como “Novinha Pode Pá”, “Tudo Nosso, Nada Deles”, “Vem Pra Rua” e “Bota pra Virar”. Vieram também as multidões, as ‘pipocas imensas’ nos circuitos do Carnaval de Salvador e, claro, as polêmicas. Até porque, convenhamos, Kannário nunca foi exatamente um passarinho de gaiola.

Quem não se lembra das polêmicas envolvendo Igor Kannário e a Polícia Militar durante o Carnaval de Salvador? O cantor já chegou a acusar policiais de abuso de autoridade durante a passagem de sua tradicional pipoca. Também pediu vaias à corporação, trocou acusações e provocou uma reação pública da PM. Um dos episódios, ocorrido em 2020, chegou, inclusive, ao Ministério Público.

Para alguns, era o artista defendendo os foliões da periferia. Para outros, havia ultrapassado os limites. E foi justamente essa identificação com as comunidades que ajudou a levá-lo à política.

Eleito vereador de Salvador em 2016 pelo extinto PHS, Kannário conquistou uma cadeira na Câmara dos Deputados em 2018, pelo mesmo partido, assumindo o mandato em 2019. Naquele ano, migrou para o Democratas (DEM), então comandado na Bahia por ACM Neto. Politicamente alinhado ao grupo, chegou a defender publicamente, em 2020, a candidatura de Bruno Reis à Prefeitura de Salvador, afirmando que ele daria continuidade ao trabalho de Neto.

Em 2019, um episódio deixou marcas na relação entre o Príncipe do Gueto e parte das comunidades que dizia representar. Kannário votou a favor da reforma da Previdência. A decisão provocou uma enxurrada de críticas nas redes sociais. Seguidores o chamaram de traidor e questionaram como alguém que se apresentava como representante da favela poderia apoiar aquela proposta.

A relação com parte do eleitorado já não parecia a mesma. Em 2022, o pássaro perdeu altitude nas urnas. Candidato à reeleição pelo União Brasil, recebeu apenas 20.514 votos, bem menos que os 54.858 conquistados quatro anos antes, e ficou sem mandato.

Dois anos depois, veio uma mudança importante de rota. Kannário deixou para trás a antiga aliança com o grupo de ACM Neto e se filiou ao PSB, partido integrante da base do governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT). O movimento marcou sua aproximação com o campo político da esquerda.

E essa aproximação com a esquerda baiana tem também um nome nos bastidores: Chico Kertész. Publicitário, filho de Mário Kertész e à frente da produtora Macaco Gordo, Chico mantém uma relação de amizade e parceria de longa data com Kannário. Segundo informações de bastidores, foi ele quem ajudou a abrir as portas para o cantor no entorno da campanha petista. Chico também participou da comunicação da campanha de Lula, ao lado do publicitário Sidônio Palmeira. Ou seja, nessa mudança de rota, o Príncipe do Gueto também contou com uma mãozinha de quem conhece bem os caminhos da política.

Vale lembrar que, em 2024, o artista tentou retornar à Câmara Municipal de Salvador, mas novamente não conseguiu se eleger. Recebeu apenas 1.553 votos.

Após o fiasco nas urnas, em 2025, o cantor chegou a anunciar que não queria mais saber de política. No entanto, o pássaro mudou de ideia. Ou, pelo menos, descobriu que poderia continuar fazendo política sem precisar ocupar uma cadeira no Legislativo.

Durante a campanha presidencial, Kannário resolveu tirar seu posicionamento político do modo silencioso. Publicou uma imagem fazendo o “L”, recebeu manifestações de Lula e Jerônimo Rodrigues nas redes sociais e passou a reforçar publicamente sua preferência pelo petista.

Durante uma apresentação, disparou: “Eu sou nove dedos toda vida”. A frase, inclusive, passou a ser reproduzida por apoiadores de Lula durante a campanha.

Mas Kannário não ficou apenas na declaração de voto. O posicionamento foi tão explícito que ele também deu voz, ritmo e muito pagodão à campanha petista.

“Bota pra Virar”, lançada originalmente em 2023, ganhou uma versão eleitoral associada à campanha de Lula. O que já era conhecido nas ruas, nos paredões e no Carnaval da Bahia passou a circular também como trilha sonora política.

E os números chamam atenção. A versão “Bota Pra Virar Lula” saltou de 33 mil para mais de 335 mil reproduções no Spotify em apenas três dias. A faixa estreou na posição 149 e chegou ao 120º lugar entre as músicas mais ouvidas do país na parada diária da plataforma. Enquanto isso, a versão original já se aproxima de 9 milhões de reproduções.

É claro que Kannário já tinha público, carreira e reconhecimento antes de Lula. Seria injusto reduzir sua trajetória ao sucesso de um ano eleitoral. Mas também seria ingenuidade ignorar o tamanho da vitrine que essa campanha abriu para ele.

O pagodão atravessou mais uma fronteira. E o Príncipe do Gueto ganhou espaço em conversas, vídeos e publicações de pessoas que talvez nunca tivessem pulado atrás de um trio elétrico em uma de suas pipocas no Carnaval de Salvador.

E é justamente aí que a história fica ainda mais interessante. O mesmo artista que já defendeu a continuidade do grupo de ACM Neto agora celebra a vitória de Lula. O mesmo ex-deputado criticado por uma votação no Congresso agora encontra receptividade entre setores da esquerda baiana.

Até porque, a política também é feita de movimentos, aproximações e reposicionamentos. E Kannário, gostem dele ou não, protagonizou um dos mais curiosos desta eleição.

Arrisco a dizer, inclusive, que sua popularidade pode ter ajudado a conquistar votos para Lula no segundo turno, sobretudo nas comunidades periféricas. É uma percepção difícil de medir, mas que revela o peso simbólico da participação do cantor na campanha.

Resta saber agora se esse novo voo ficará restrito aos palcos. Porque, convenhamos, depois de duas derrotas eleitorais, o cantor voltou a conquistar uma exposição política que não tinha havia algum tempo. E, se decidir disputar novamente um mandato, acredito que poderá transformar parte dessa visibilidade em votos.

Não veria como surpresa Kannário conquistar uma vaga na Câmara Municipal de Salvador, na Assembleia Legislativa da Bahia ou até retornar ao Congresso Nacional.

De qualquer forma, o Príncipe do Gueto chega ao fim de 2026 com algo que todo artista deseja: sua música circulando, seu nome em evidência e novos públicos prestando atenção ao que ele faz.

No fim das contas, talvez o maior feito de Kannário não tenha sido colocar Lula para dançar ao som do pagodão. Foi conseguir dar um novo impulso à própria trajetória.

O pássaro que já perdeu altitude nas urnas parece ter encontrado uma nova corrente de vento. Resta saber se continuará voando apenas pelos palcos ou se, mais cedo ou mais tarde, tentará pousar novamente na política.

Uma coisa é certa: desta vez, Igor Kannário não ficou esperando o vento mudar. Ele mesmo tratou de botar pra virar.