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Carnaval eletrônico e a possível aposta de Daniela Mercury para o Carnaval 2027

Por Gabriel Silva•
Carnaval eletrônico e a possível aposta de Daniela Mercury para o Carnaval 2027
Divulgação Crédito: Divulgação
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Gabs Ouviu — Música baiana sem passar pano

Que Daniela Mercury vem reconquistando o protagonismo como a rainha do axé music é difícil negar. Nos carnavais de 2025 e 2026, a cantora voltou a ocupar espaço nas redes sociais e no debate musical, impulsionada por seus posicionamentos políticos e por lançamentos que dialogam diretamente com a identidade baiana.

“Axé Salvador”, lançado em 2025, e “É Terreiro”, em 2026, são exemplos dessa aproximação com temas ligados a Salvador, à cultura afro-baiana e às religiões de matriz africana. Com “É Terreiro”, Daniela também conquistou o prêmio de Música do Carnaval 2026 do Band Folia.

Band

Mas, enquanto o axé volta a ocupar o centro das atenções, um pedido começou a movimentar os fãs da artista: Daniela Mercury misturando axé e música eletrônica como aposta do carnaval 2027.

Nas redes sociais, admiradores da cantora têm pedido uma segunda edição do álbum Carnaval Eletrônico, lançado em 2004. A expectativa ganhou força após o lançamento de Confessions II, álbum de Madonna que retoma a música eletrônica como elemento central de sua sonoridade. Em agosto, Daniela exaltou o trabalho da diva pop em uma publicação no Instagram e relembrou sua própria experiência com o projeto eletrônico, aumentando as expectativas.

Até aqui, uma possível continuação de Carnaval Eletrônico é uma expectativa dos fãs, não um projeto oficialmente anunciado pela cantora. Ainda assim, a movimentação é suficiente para levantar uma discussão sobre os caminhos que Daniela pode escolher para o próximo verão.

Uma aposta que dividiu opiniões

Lançado em 2004, Carnaval Eletrônico representou um momento de experimentação na carreira de Daniela Mercury. O disco reuniu elementos da música afro-baiana, da axé music e da música eletrônica, com a participação de artistas como Carlinhos Brown, Gilberto Gil e Lenine, além de DJs e produtores ligados à cena eletrônica.

Divulgação

O resultado foi um trabalho que buscava ampliar as possibilidades sonoras do carnaval sem abandonar as referências culturais da Bahia. A mistura, porém, também provocava questionamentos sobre os limites da festa e sobre o espaço que a música eletrônica deveria ocupar no repertório carnavalesco.

Foi desse projeto que saiu “Maimbê Dandá”, música do carnaval daquele ano. A canção sintetiza justamente o que havia de mais interessante na proposta: a combinação de referências afro-baianas com uma sonoridade contemporânea.

Naquele momento, Daniela não estava simplesmente incorporando uma tendência internacional. Estava experimentando novas possibilidades para o próprio carnaval, levando a música eletrônica para o universo do trio elétrico e construindo uma estética que aproximava a festa popular da linguagem dos grandes espetáculos pop. Ela levava djs para o trio, trazia figurinos que remetia a estética e transformava o carnaval em uma verdadeira boate.

Divulgação

Mais de duas décadas depois, a questão é outra: uma nova aposta nesse caminho faria sentido agora?

O público quer mais eletrônico ou mais Bahia?

É aqui que entra a minha principal dúvida. Se Daniela voltou a conquistar espaço com músicas que exaltam a Bahia, o axé e a ancestralidade, por que mudar a rota justamente quando essa identidade parece tão bem recebida?

A cantora tem repertório, história e legitimidade para experimentar. É uma das artistas que ajudaram a projetar a música baiana nacionalmente e que, ao longo da carreira, nunca se limitaram a repetir fórmulas. Mas também é preciso reconhecer que o momento atual parece favorecer uma conexão mais direta com as raízes da festa.

Uma nova edição de Carnaval Eletrônico poderia soar como uma renovação necessária ou como um movimento distante daquilo que o público espera dela? Não existe resposta definitiva. O que existe é uma oportunidade de discutir o lugar da música baiana em uma festa cada vez mais diversa e comercial.

Basta observar o circuito Barra-Ondina para perceber que a presença de DJs e artistas ligados ao pop nacional se tornou parte do cenário do carnaval. Nomes como Alok, Pedro Sampaio, Dennis DJ, Anitta e Ludmilla mostram que há espaço para diferentes gêneros, públicos e formatos de apresentação.

E seria um erro ignorar esse movimento. A música eletrônica e o pop também mobilizam multidões, especialmente entre os mais jovens. Ao mesmo tempo, a presença dessas atrações não significa que o axé tenha perdido sua relevância, nem que exista uma disputa em que apenas um gênero possa vencer.

Talvez seja justamente nesse público mais jovem que Daniela esteja encontrando uma nova oportunidade de expansão. Depois do Carnaval de 2026, usuários das redes sociais passaram a comentar suas apresentações, declarar que se tornaram fãs e compartilhar descobertas de seu repertório. Esse interesse pode abrir portas para novas experiências sonoras, inclusive as eletrônicas.

A questão, portanto, não é se Daniela deve ou não experimentar. É como fazer isso sem perder aquilo que a torna única.

O axé não pode virar coadjuvante

Na minha avaliação, Daniela deve continuar investindo na música baiana. Isso não significa rejeitar a eletrônica, o pop ou qualquer outra influência. Significa compreender que a experimentação pode ser ainda mais potente quando nasce de uma identidade bem definida.

O carnaval é uma festa plural, aberta a diferentes ritmos e públicos. Mas a diversidade não pode servir de justificativa para que a música produzida na Bahia ocupe um espaço cada vez menor dentro da própria festa.

Quando olhamos para nomes como Ivete Sangalo, Bell Marques, Luiz Caldas, Saulo Fernandes, os blocos afros e a própria Daniela Mercury, percebemos que o axé continua vivo e se renova por meio de diferentes gerações e linguagens. O circuito Osmar, no Campo Grande, também mantém uma relação histórica com o carnaval de rua e com a memória da festa.

Ao mesmo tempo, a expansão dos camarotes, a força dos grandes patrocínios e a presença crescente de atrações nacionais de outros gêneros transformam a experiência carnavalesca. Não há problema em abrir espaço para o novo. O problema é quando a novidade passa a ser valorizada em detrimento daquilo que construiu a identidade cultural do evento.

Por isso, não sei se este é o momento para uma nova edição de Carnaval Eletrônico ocupar o centro da estratégia de Daniela. Mas não vamos subestimar a rainha, Daniela Mercury já mostrou inúmeras vezes que gosta de desafiar expectativas. Sua trajetória foi construída com experimentação, ousadia e disposição para seguir caminhos que nem sempre eram óbvios. Seria precipitado, portanto, descartar a possibilidade de que ela encontre uma maneira surpreendente de unir essas duas forças.

Quem sabe não surge uma nova “Maimbê Dandá”? Quem sabe a cantora não apresenta um hit capaz de dialogar com a juventude, conquistar as pistas e, ao mesmo tempo, reafirmar a identidade da música baiana?

Por enquanto, tudo não passa de expectativa. Mas uma coisa é certa: se Daniela decidir revisitar o universo eletrônico, vai precisar ir além da nostalgia e apresentar uma proposta que faça sentido para o carnaval de hoje.

E eu sigo torcendo para que a experiência venha acompanhada de muito axé, ancestralidade e música baiana na veia. Afinal, inovar é importante. Mas saber de onde se vem continua sendo essencial.

Até a próxima edição do Gabs Ouviu!