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Barrados nas urnas: o eleitor está mandando um recado de que lugar de famoso não é na política?

Por Diego Vieira•
famosos que não se elegeram
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Na semana passada, estreiei esta coluna trazendo uma discussão que ganhou força durante as eleições: afinal, artistas e famosos têm obrigação de dizer em quem votam? Falei sobre a cobrança dos fãs, o peso da influência dessas personalidades e o direito que cada cidadão tem de se posicionar ou simplesmente guardar seu voto para si.

Pois bem! Mal passou o primeiro turno e o assunto continua rendendo. Agora, com a disputa presidencial entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), o posicionamento político de artistas, influenciadores e outras celebridades voltou a ganhar destaque nas redes sociais. Tem famoso declarando voto, gente cobrando posicionamento e até celebridades criticando umas às outras, seja pelo silêncio ou por defenderem candidatos diferentes.

Mas, desta vez, quero olhar para o outro lado dessa relação entre fama e política. Porque, enquanto algumas celebridades usam a popularidade para influenciar o voto, outras tentaram transformar o próprio reconhecimento em votos. E o resultado do último domingo, dia 4, deixou uma pergunta no ar: será que o eleitor está começando a rejeitar a presença de famosos na política?

E olha que aqui na Bahia não faltaram exemplos.

Um deles é o repórter Jorge Araújo, figura conhecida da televisão baiana, que já conquistou uma cadeira na Câmara Municipal de Salvador e hoje exerce o mandato de deputado federal na condição de suplente. Desta vez, tentou, mais uma vez, garantir uma vaga na Câmara dos Deputados, mas recebeu 24.813 votos e não conseguiu se eleger.

Outro caso é o da dançarina Leo Kret do Brasil, que fez história ao se tornar a primeira vereadora trans de Salvador. Apesar de já ter conquistado um mandato e marcado seu nome na política da capital baiana, ela voltou a ficar pelo caminho, assim como aconteceu em outras disputas eleitorais. No último domingo, recebeu pouco mais de 7 mil votos na tentativa de chegar à Câmara dos Deputados.

famosos baianos eleições

E a lista baiana não para por aí. O policial militar e influenciador Soldado Corrêa, conhecido pelas polêmicas nas redes sociais, recebeu quase 81 mil votos para deputado federal. Uma votação expressiva, mas insuficiente para garantir uma cadeira em Brasília. Apesar de não ter sido eleito, terminou a disputa na condição de suplente, o que ainda lhe dá a possibilidade de assumir um mandato caso surja uma vaga ao longo da legislatura.

Por outro lado, outros nomes conhecidos do público não chegaram nem perto dessa votação. O apresentador Uziel Bueno, por exemplo, recebeu 6.480 votos, enquanto o empresário do entretenimento Sacra somou 6.882.

Na disputa pela Assembleia Legislativa da Bahia, o cenário não foi muito diferente. O policial e influenciador Alexandre Tchaca conquistou 13.646 votos. Já o ex-jogador Marcone Amaral, que chegou a exercer mandato de deputado estadual na condição de suplente, acabou fazendo um gol contra nas urnas, ao receber 8.159 votos e não conseguir se eleger.

E, por falar em futebol, outra figura conhecida que volta e meia tenta entrar na política é Binha do Bahia. O emblemático torcedor tricolor, que ganhou notoriedade pela paixão pelo Esquadrão de Aço, somou apenas 692 votos nesta eleição.

Vale lembrar também do cantor Igor Kannário. Embora não tenha disputado as eleições deste ano, o artista é outro exemplo de como a popularidade nem sempre garante uma trajetória eleitoral de sucesso. O “Príncipe do Ghuetto” já foi vereador de Salvador, chegou à Câmara dos Deputados, mas, em 2022, tentou renovar o mandato e não conseguiu.

E, se na Bahia a situação foi essa, no restante do Brasil o recado das urnas também merece atenção.

Um dos casos mais emblemáticos é o do humorista Tiririca. Em 2010, ele surpreendeu o país ao conquistar mais de 1,3 milhão de votos para deputado federal por São Paulo. Virou um fenômeno eleitoral com o famoso bordão “Pior do que tá, não fica”. Foi reeleito outras três vezes, mas, agora, em 2026, decidiu disputar pelo Ceará e recebeu apenas 5.523 votos. Ou seja, passou longe de conseguir uma nova vaga na Câmara dos Deputados.

A jornalista Rachel Sheherazade, a apresentadora Silvia Abravanel, filha de Silvio Santos, e o apresentador Datena também não conseguiram se eleger. O mesmo aconteceu com Geraldo Luís, Sikêra Jr., MC Gui e Manoel Gomes, o famoso Caneta Azul. Todos tiveram votações bastante modestas.

Diante de tantos resultados, confesso que fiquei pensando: será que estamos diante de uma mudança na forma como o brasileiro enxerga a relação entre fama e representação política?

Não tenho uma resposta definitiva. Até porque seria precipitado afirmar que o eleitor passou a rejeitar candidatos famosos. Alguns continuam sendo eleitos, outros mantêm carreiras políticas consolidadas.

Mas uma coisa me parece cada vez mais evidente: o reconhecimento público, sozinho, não garante a confiança do eleitor. E talvez seja justamente aí que esteja a principal questão.

Durante muito tempo, vimos partidos políticos apostarem em celebridades como verdadeiros puxadores de votos. Não importava tanto se tinham experiência política ou conhecimento sobre as atribuições do cargo. Bastava ter um rosto conhecido, um bordão popular ou uma legião de seguidores para chamar atenção durante a campanha.

Só que os resultados mostram que essa estratégia, pelo menos para muitos dos nomes citados, não foi suficiente. E isso merece uma reflexão. Afinal, ter milhões de seguidores não significa necessariamente ter milhões de eleitores.

Antes que alguém interprete mal, faço questão de deixar claro: não sou contra artistas, influenciadores, jornalistas, subcelebridades, jogadores de futebol ou qualquer outra personalidade pública entrar na política. Muito pelo contrário. A política precisa ser plural. Precisa ter gente de diferentes origens, profissões, vivências e realidades. Mas acredito que quem pretende ocupar um cargo público precisa, no mínimo, ter embasamento para defender suas ideias, compreender os problemas da sociedade e apresentar propostas que façam sentido para a população.

Quem deseja ocupar uma cadeira no Legislativo precisa conhecer as responsabilidades do cargo e entender como funciona a elaboração de projetos de lei, por exemplo.

E é necessário lembrar que, ao assumir um mandato, essas pessoas não estarão mais apenas em cima de um palco, dentro de um campo de futebol ou com um celular na mão fazendo piadas para ganhar curtidas. Estarão ocupando um espaço de poder, tomando decisões que podem impactar diretamente a vida de milhares ou até milhões de pessoas.

E tem mais: quem se elege não representa apenas o próprio fã-clube. Representa também quem nunca ouviu sua música, quem não acompanha seus vídeos, quem não torce pelo seu time e até quem votou em outro candidato.

Também considero importante lembrar que ter diploma não é garantia de competência, assim como não ter formação acadêmica não impede ninguém de exercer um bom mandato.

Mas, voltando a falar do resultado das urnas no último domingo, a pergunta que, acredito, que precisa ser feita a qualquer personalidade pública que deseja entrar na política é: além da fama que você já conquistou, o que pretende oferecer à sociedade caso seja eleito ou eleita?

Uma coisa é conquistar uma plateia. Outra, bem diferente, é conquistar a confiança de uma sociedade. E talvez as urnas estejam começando a deixar essa diferença cada vez mais clara.