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As escolas resistirão ao tsunami da inteligência artificial?

Por Redação NB•
As escolas resistirão ao tsunami da inteligência artificial?
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A minha geração, nascida no final da década de 1970, fez a transição entre o mundo analógico e o digital. Vivenciamos a chegada dos primeiros computadores, da internet e da telefonia móvel. A televisão, o rádio e os jornais impressos eram as únicas fontes confiáveis de informação. Aliás, eu, que sou nascido no interior, também tinha as vizinhas que ficavam nas portas ao final da tarde e traziam as notícias locais, mas isso é outra história. De verdade, fizemos a travessia entre a materialidade da escrita e a virtualidade dos smartphones, dos tablets e de todas as ferramentas do mundo digital.

Minha geração é do tempo em que o professor Nelson Pretto dava entrevistas na televisão explicando o significado do @ e sustentando que os computadores não substituiriam os professores. Mais tarde, como estudante da Faculdade de Educação da UFBA (Faced), além de ter sido aluno do professor Nelson, presenciei o atuante docente implantar, no final da década de 1990, os tabuleiros digitais e os laboratórios de informática. E sim, ele estava certo: os computadores, os sistemas, os programas e a internet não substituíram a potente intervenção dos educadores. Sem a força intelectual dos seres humanos, qualquer ferramenta tecnológica não passa de um objeto inerte, incapaz de produzir ou transmitir conhecimento de forma autônoma.

Seguiremos o mesmo raciocínio diante da Inteligência Artificial (IA)? Eu apostaria que sim. Os leitores poderão me questionar se a dinâmica e a autoinstrução das plataformas de IA não conferem competências muito próximas às humanas na produção de conhecimento e acumulação de saberes. Argumentarão que elas podem substituir profissões, indicar medicamentos, analisar exames de imagem e laboratoriais, ministrar aulas, realizar terapias, montar dietas e responder às mais diversas dúvidas com base científica.

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Sim, elas podem fazer tudo isso para o bem, mas também podem incorrer em interpretações equivocadas, descontextualizadas e destituídas da subjetividade e da individualidade inerentes aos humanos. Sem contar que o acúmulo de conhecimento das IAs é alimentado por depósitos diários de informações em bancos de dados e interações construídas pelas próprias pessoas. Logo, o capital intelectual não é artificial; ele é humano, social e cultural.

A humanidade construiu, a partir de saberes históricos somados a milhares de pesquisas científicas e experiências cotidianas, um vasto universo de conhecimento que responde objetivamente a quem o argui. Contudo, fiquemos atentos: saber perguntar é fundamental. É justamente aí que mora a grande inquietação da atualidade. Os professores continuarão a ser os construtores de sujeitos capazes de indagar, de investigar e de cultivar a curiosidade pelo saber.

Assim, a tese defendida por Nelson Pretto continua viva e intacta: sempre caberá aos professores separar o joio do trigo. Não nos cabe lutar contra o que está posto; devemos aproveitar a tecnologia da melhor forma, ressignificá-la e usá-la em prol da melhoria da humanidade.

Na tentativa de responder à pergunta que intitula este artigo sem a pretensão de esgotar um debate que ainda terá muitos capítulos, recorro mais uma vez ao mestre Nelson Pretto. Em sua publicação intitulada O desafio de educar na era digital, ele escreveu:

“O professor tem que ser valorizado enquanto elemento que possa articular essas diversas instâncias na produção do conhecimento e das diferenças trazidas pelos seus alunos. Assim, e somente assim, com o professor retomando o seu papel de liderança científica, cultural, ética, a escola pode assumir a condição de se constituir num efetivo espaço coletivo de culturas e conhecimentos (…)”

A escola continuará firme, preparando as gerações para o uso crítico e a construção de novas ferramentas no vasto mundo da virtualidade, sempre com professores e os efervescentes estudantes.

Por Manoel Calazans

Pedagogo, especialista em gestão educacional e Mestre em Políticas Sociais e Cidadania. Assessor Especial na SEC-Bahia e Coordenador Especial do Programa Mais Infância.