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O direito de chegar: quantos campeões a Bahia já deixou no ponto de ônibus?

Por Danilo Oliveira Costa•
O direito de chegar: quantos campeões a Bahia já deixou no ponto de ônibus?
Crédito: Noticiário Baiano
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Quantos talentos a Bahia já perdeu porque faltou dinheiro para a passagem de ônibus?
Ninguém sabe responder. E é justamente isso que deveria nos incomodar. Não existe estatística para o menino de Sussuarana que parou de ir ao treino de atletismo porque a mãe precisou escolher entre o pão e a condução. Não há registro da menina do Subúrbio Ferroviário que nadava como poucas, mas deixou a piscina porque o treino ficava a duas conduções de casa. Esses campeões não sobem em pódio nenhum. Desaparecem em silêncio, num ponto de ônibus qualquer de Salvador ou numa estrada qualquer do interior.

Eu conheço esse caminho

Antes de atuar na construção de políticas públicas, eu também fui atleta. E aprendi cedo que, para muitos jovens, o maior adversário não está dentro das quadras, das piscinas ou das pistas. Está no trajeto até elas.
Convivi e sei o que significa enfrentar longos deslocamentos, depender do transporte público, sair de casa ainda escuro e voltar depois do anoitecer, contando moedas para continuar treinando e acreditando em um sonho. O esporte transformou a minha vida. E é exatamente por isso que não consigo aceitar que tantas outras vidas deixem de ser transformadas por um motivo tão pequeno e, ao mesmo tempo, tão cruel.
O talento pode nascer em qualquer lugar. Mas a oportunidade precisa conseguir chegar até ele.

A Bahia que vence apesar de tudo

Poucos lugares provam isso tão bem quanto a Bahia.

Edvaldo Valério, o Bala, nasceu e cresceu em Itapuã e chegou à natação por meio de um projeto social. Em Sydney, no ano 2000, ajudou o Brasil a conquistar o bronze no revezamento 4×100 livre e se tornou o primeiro, e até hoje único, nadador negro brasileiro a ganhar uma medalha olímpica. Por trás dessa conquista houve anos de rotina pesada, sustentada pelo sacrifício da família, em especial da mãe, Dona Aina, que acompanhava o filho de um lado para o outro da cidade.

Robson Conceição, menino da Boa Vista de São Caetano, começou a trabalhar ainda criança ao lado da avó na Feira de São Joaquim. Anos depois, no Rio de Janeiro, em 2016, conquistou o primeiro ouro olímpico da história do boxe brasileiro.

Isaquias Queiroz saiu de Ubaitaba, no sul do estado, e foi acolhido ainda criança por um programa social esportivo. Tornou se o primeiro brasileiro a ganhar três medalhas numa mesma edição dos Jogos, foi ouro em Tóquio, prata em Paris e hoje está entre os maiores medalhistas olímpicos do país.

E a lista segue: Hebert Conceição e Bia Ferreira no boxe, Ana Marcela Cunha na maratona aquática, Adriana Araújo, pioneira do boxe feminino. A Bahia exporta campeões para o mundo. A pergunta é quantos ficaram pelo caminho.

Parem de romantizar a superação

O próprio Bala já fez esse alerta publicamente. Para ele, quando um atleta vence sem estrutura, o país costuma chamar isso de superação, quando na verdade está diante do retrato da falta de políticas de apoio ao esporte. Ao comentar a trajetória de Ítalo Ferreira, que aprendeu a surfar numa prancha improvisada, ele deixou a pergunta que deveria ecoar em todo gabinete: “Quantos outros Ítalos a gente pode ter perdido?”

Eu faço a mesma pergunta: Quantos outros Balas, Robsons e Isaquias a Bahia já perdeu?

Cada história de superação que celebramos esconde dezenas de histórias interrompidas que nunca chegaram ao noticiário. Os campeões que conhecemos venceram apesar do sistema.

A conta que ninguém faz

Em 2026, a tarifa de ônibus em Salvador chegou a R$ 5,90, acima da cobrada em São Paulo e no Rio de Janeiro. Façamos uma conta simples. Um jovem que treina cinco vezes por semana gasta cerca de R$ 236 por mês apenas para ir e voltar do treino. Para uma família que vive com um salário mínimo, isso consome perto de 15% da renda. Se forem dois filhos no esporte, a conta dobra. Se houver competição no fim de semana, aumenta ainda mais.

Diante disso, a escolha é previsível. E quase nunca é o esporte que vence.

Há um paradoxo que precisa ser dito em voz alta. Salvador ganhou uma piscina olímpica, a Arena Aquática da Pituba, com aulas gratuitas para a população. Mas, para a criança de Paripe, de Cajazeiras ou de Sussuarana, a aula gratuita começa com uma passagem paga. A porta está aberta; o caminho até ela, não.
No interior, o desafio é ainda maior. Ali a distância não se mede em bairros, mas em municípios. O jovem canoísta, o lutador, a corredora precisam muitas vezes de transporte intermunicipal para treinar e competir, e esse custo simplesmente não cabe no orçamento de milhares de famílias baianas.

O quadro de medalhas começa no ponto de ônibus

Nos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024, o Brasil conquistou 20 medalhas, sendo 3 de ouro. Nas Paralimpíadas, na mesma cidade, foram 89 medalhas, 25 delas de ouro, com o país terminando entre as cinco maiores potências do mundo. A diferença tem muitas explicações, mas uma delas é central: uma política consistente de base, com estrutura, acompanhamento e acesso. Quando o país decide sustentar o caminho do atleta, o resultado aparece no quadro de medalhas.
Agora imagine a Bahia. Um estado que, mesmo sem uma política estruturada de acesso, já entregou ao Brasil ouro no boxe, na canoagem e na maratona aquática. O que aconteceria se cada criança talentosa de Salvador, da Região Metropolitana e do interior pudesse simplesmente chegar ao treino, todos os dias, sem que a família pagasse por isso?

A criança que hoje tem 10 anos pode estar no pódio em Brisbane, em 2032. A decisão sobre se ela chegará lá não será tomada em 2032. Está sendo tomada agora, todos os dias, no ponto de ônibus.

Mobilidade é direito, esporte também

Desde 2015, a Constituição Federal reconhece o transporte como direito social, ao lado da educação, da saúde e do lazer. A mesma Constituição atribui ao Estado o dever de fomentar as práticas esportivas. Quando um jovem não consegue chegar ao treino, os dois direitos falham ao mesmo tempo.
Por isso, por meio do Instituto Brasileiro de Direito de Trânsito, o IBDTRANSITO, defendemos que o trânsito, o transporte e a mobilidade urbana sejam tratados como verdadeiros instrumentos de inclusão social. E propomos um passo concreto: transporte público gratuito para atletas de base e para crianças e adolescentes atendidos por projetos sociais esportivos.

Na Bahia, essa política pode nascer de forma simples: cadastro dos beneficiários pelas federações baianas e por projetos credenciados, benefício vinculado à frequência nos treinos e na escola, integração com o Salvador Card e com os sistemas metropolitano e intermunicipal, e financiamento compartilhado entre municípios, Estado, fundos de esporte e parceiros privados. É uma medida fácil de fiscalizar e de enorme retorno social.

Porque garantir o deslocamento é garantir acesso ao esporte, à educação, à saúde, à convivência e à dignidade.

Um chamado

Não basta descobrir talentos. Precisamos criar condições para que eles tenham a oportunidade de vencer. No esporte e na vida.
Que essa discussão ultrapasse as palavras. Que mobilize as federações esportivas, a Câmara Municipal de Salvador, a Assembleia Legislativa da Bahia, as prefeituras do interior, os operadores de transporte e toda a sociedade baiana. Uma política pública de mobilidade pode ser o primeiro passo para uma geração inteira de vencedores.

Não podemos aceitar que a distância entre uma criança e o seu sonho seja medida pelo dinheiro que a sua família tem para pagar uma passagem.

A Bahia já deu ao Brasil o Bala, o Robson, o Isaquias. Imagine o que ela pode dar quando ninguém mais precisar vencer apesar do caminho.

Então eu pergunto a você, leitor, gestor, parlamentar, dirigente: quantos futuros campeões baianos podemos ajudar a formar quando garantimos a eles o direito de chegar?
Vamos juntos nessa.

Danilo Oliveira Costa é advogado especialista em Direito de Trânsito