Que molho é esse? O Kannalha e a gourmetização do pagode baiano

Gabs Ouviu — Música baiana sem passar pano
Quando falamos de pagodão baiano, não faltam ingredientes: batida viciante, melodia chiclete e letras que vão do curioso ao explícito. É a música que faz os paredões tremerem na Bahia e que, há décadas, revela artistas capazes de transformar expressões populares em verdadeiros fenômenos. O Polêmico, Bruno Magnata, Bailão do Robssão e, claro, Igor Kannário são alguns dos nomes que representam esse universo. É o que eu gosto de chamar de MPB: Música Popular Baiana.
Mas e Danrlei Orrico, ou melhor, O Kannalha, você conhece? O cantor parece ter conseguido algo que muitos artistas do gênero tentaram: furar a bolha do pagodão e chegar a públicos que nem sempre consumiam esse tipo de música. Mais do que isso, ele parece ter criado uma nova modalidade, que eu ouso chamar de pagode gourmet.
Calma, maridão! Não é crítica ao tempero da sua música. É justamente uma tentativa de entender como um artista ligado a um gênero tantas vezes estigmatizado conseguiu circular por ambientes tão diferentes sem abandonar a batedeira, as letras provocativas e o molho que o tornaram conhecido.
Quem é O Kannalha?

Natural de Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador, Danrlei Orrico começou a ganhar projeção com músicas como “Fraquinha”, “Traficante de Desejos” e “Vou Colocar”. Mas foram “Nego Doce” e, principalmente, “O Baiano Tem o Molho” que ajudaram a ampliar seu alcance.
Em dezembro de 2025, o cantor venceu o Prêmio Multishow na categoria Axé/Pagodão do Ano com “O Baiano Tem o Molho”. A conquista foi importante não apenas para sua carreira, mas também para um gênero que nem sempre recebe o mesmo espaço de outros ritmos no mercado nacional.
Nos shows e nas redes sociais, O Kannalha construiu uma imagem tão reconhecível quanto suas músicas: peito nu, corpo coberto de tatuagens, uma guia roxa de Nanã no pescoço e a famosa dança da batedeira. É o personagem do “maridão”, que chama suas fãs de maridonas e transforma a própria presença de palco em parte do espetáculo.
Só que o fenômeno vai além da música. O cantor teve um relacionamento com Preta Gil, ganhou repercussão nacional com “O Baiano Tem o Molho”, viu a canção ser associada à campanha de divulgação do filme O Agente Secreto, estrelado por Wagner Moura, e conquistou a atenção de um público que vai muito além dos fãs tradicionais do pagodão.

Some a isso a aproximação com o universo pop, as coreografias que viralizam, a presença em eventos de grande alcance e o carinho do público LGBTQIA+. Para mim, O Kannalha se tornou um dos nomes que melhor representam a possibilidade de o pagodão baiano ocupar novos espaços. E, sim, ouso dizer: ele é um dos atuais popstars da música baiana.
Popstar no pagode
É verdade que O Kannalha não precisa ter a maior pipoca do Carnaval no Campo Grande nem colecionar clássicos de décadas para provar seu sucesso. Sua trajetória é outra. O que chama a atenção é a capacidade de levar um gênero tão associado às periferias baianas para ambientes nos quais ele nem sempre teve o mesmo prestígio.
E não me venha dizer que Léo Santana chegou lá primeiro. aqui estou falando de outro recorte: os artistas do pagodão de letras extravagantes, batidas pesadas e refrões que só a Bahia sabe produzir. O diferencial de O Kannalha está em como ele transformou essa linguagem em uma espécie de produto pop, sem precisar esconder suas origens.
A diferença aparece quando observamos os espaços que o artista passou a ocupar. Afropunk, Festival de Verão, eventos como o Everyday People e apresentações fora da Bahia ajudam a mostrar que seu público não está restrito aos bairros e aos circuitos onde o pagodão já tem tradição.
E não se trata de dizer que nenhum outro artista do gênero conseguiu chegar a esses lugares. O próprio cenário baiano tem nomes que ampliaram as fronteiras do pagode. Mas O Kannalha chama a atenção pela forma como combina essa circulação com uma persona pop, uma estética própria e uma presença constante nas conversas das redes sociais.
Vamos combinar: lá em 2010, quando o pagodão ganhava força com uma geração de artistas e bandas que marcaram a Bahia, era tão comum ver um cantor desse universo circular entre festivais, cultura pop e públicos tão diferentes? O gênero já tinha força popular, mas nem sempre recebia o mesmo reconhecimento fora de seu território.
E é aí que entra a tal gourmetização. O Kannalha não precisou abandonar a batida, suavizar completamente as letras ou se distanciar da origem para chegar a outros espaços. Ele levou o pagodão consigo. O que mudou foi a maneira como esse artista passou a ser apresentado, consumido e reconhecido.
Outro ponto importante é a capacidade de virar notícia. É uma participação em show, uma coreografia, uma aparição ao lado de artistas conhecidos, uma música que ganha novos significados nas redes. O Kannalha entendeu que, hoje, o artista pop não vive apenas de lançar música: precisa construir presença, gerar conversa e criar momentos que o público queira compartilhar.
E, nesse quesito, o maridão tem molho de sobra.
Uma mãozinha de Pabllo Vittar

É verdade que essa trajetória não aconteceu sozinha. Para entrar em outros universos musicais e conquistar novos públicos, O Kannalha também contou com uma grande aliada: Pabllo Vittar.
Em 2023, a drag queen lançou “Penetra”, parceria com O Kannalha e Pedro Sampaio. Será que foi ali que ele começou a furar a bolha de forma mais evidente? A colaboração aproximou o baiano dos fãs de Pabllo e do universo pop, ajudando a ampliar seu alcance para além do público tradicional do pagodão.
Na mesma época, surgiram rumores de um possível affair entre os dois, negados pelos artistas, que afirmaram manter uma relação de amizade. Mas o episódio também chamou a atenção por outro motivo: O Kannalha demonstrou tranquilidade diante das especulações e manteve uma relação respeitosa com Pabllo.
E aqui vale uma provocação. Em 2014, enquanto parte do pagodão ainda reproduzia letras homofóbicas, havia músicas como “Eu tô de olho, eu tô ligado, eu vi você saindo da casa do viado”. É esse contraste que me interessa. Durante anos, o gênero conviveu com letras que usavam a homossexualidade como ofensa, enquanto hoje vemos um artista do mesmo universo conquistar o carinho do público LGBTQIA+.
Isso não significa que todo o pagodão seja homofóbico, nem que O Kannalha, sozinho, represente uma transformação definitiva. Mas é impossível ignorar a mudança de cenário: um gênero que já teve artistas cantando versos como esses também pode abrir espaço para novas masculinidades, parcerias e relações com públicos historicamente ridicularizados por parte da própria música popular.
E, nesse aspecto, O Kannalha ajuda a mostrar que o pagodão pode se reinventar sem perder sua identidade.
O abraço do público LGBTQIA+
O carinho desse público é visível nas redes sociais, nas apresentações e nas reações às performances do cantor. O Kannalha brinca com a própria imagem, investe na sensualidade e não parece interessado em seguir o modelo tradicional de masculinidade que, por muito tempo, dominou parte do pagodão.
Um exemplo recente aconteceu em agosto de 2026, durante o Festival Movimento Cidade, no Espírito Santo. O cantor incluiu uma referência à música “Run the World (Girls)”, de Beyoncé, em uma apresentação ligada ao remix de “Penetra”. A performance viralizou, e muita gente passou a chamá-lo de divo pop.
O próprio artista explicou que a inspiração veio do irmão, Darlan Orrico, bailarino e fã de Beyoncé. Também afirmou que queria desafiar os limites impostos aos homens dentro de um meio musical que considera machista.
Esse episódio ajuda a entender o que torna O Kannalha interessante. Não é apenas a dança, a sensualidade ou a referência a uma estrela internacional. É a possibilidade de um artista do pagodão brincar com códigos da cultura pop, desafiar expectativas e continuar sendo reconhecido como parte da música baiana.
E aqui está um dos pontos que mais me chamam a atenção: ele não precisa deixar de ser pagodeiro para dialogar com o pop. Pelo contrário, é justamente por levar sua identidade para esses espaços que consegue se destacar.
A última do maridão: “Café PQG”
E o maridão não para! O Kannalha lançou em outubro de 2026 a música “Café PQG”, sigla para “Preto, Quente e Gostoso”, apostando novamente nos elementos que ajudaram a consolidar sua identidade musical.
A faixa mantém a batida dançante, as frases de efeito e a sensualidade que já aparecem em sucessos como “Nego Doce” e “O Baiano Tem o Molho”. A exaltação do corpo negro e a linguagem provocativa seguem no centro da proposta, acompanhadas de referências à performance e à estética que o público já reconhece.
A estratégia é clara: não abandonar a fórmula que funciona, mas continuar alimentando o personagem e a conversa em torno dele. Resta saber se “Café PQG” vai alcançar a mesma repercussão dos sucessos anteriores e se transformar em mais um dos hits que embalam o verão baiano.
O próximo Carnaval será um bom termômetro. Afinal, viralizar nas redes e conquistar espaço em festivais é importante, mas a relação com a rua, com os paredões e com o público que sustenta o pagodão continua sendo fundamental.
Até a próxima edição! Continuamos ouvindo por aqui!



