Ex-funcionária aciona Clínica Florence na Justiça após desenvolver Síndrome de Burnout e dispara: “assédio”

Uma ex-funcionária acionou na Justiça a Clínica de Internação Santo Antônio, que usa o nome comercial Clínica Florence. As denúncias são diversas e vão de “assédio” a “ambiente insalubre”. A autora dessas acusações é uma profissional da área de saúde de iniciais CCL. A vítima relatou ao Noticiário Baiano que trabalhou durante três anos na instituição e acabou desenvolvendo transtornos psiquiátricos como ansiedade, além da Síndrome de Burnout. Também destacou sua atual incapacidade temporária para o trabalho em decorrência das doenças desenvolvidas enquanto trabalhava na referida clínica.

CLL afirmou à reportagem que pediu rescisão indireta por “não aguentar mais o trabalho na empresa”. Juridicamente, a rescisão indireta acontece quando o empregado rompe o vínculo empregatício devido a faltas graves cometidas pelo empregador, ou seja, é uma demissão por justa causa do empregador. Nestes casos, o empregado se vê obrigado a rescindir o contrato devido a situações insustentáveis no ambiente de trabalho.

Questionada sobre os motivos pelos quais foi levada a tomar tal providência, a denunciante elencou: “Ambiente insalubre, cobranças insustentáveis e, principalmente, jornadas extravagantes, ausência de intervalo, assédio, descumprimentos e mudanças de horários, metas impostas abusivas, abusividade dos gestores”.

Ainda sobre a rotina dos empregados no dia a dia da Clínica Florence e no trato dos gestores com os empregados, a reclamante complementa: “Não tinha qualquer estrutura. Todos nós sofríamos em razão da necessidade de realizar tarefas impossíveis diante das péssimas condições de trabalho”. Ainda ao NB, a ex-funcionária relata que era tratada pelos gestores da instituição “sempre com muita grosseria, indiferença e sem qualquer empatia por parte deles”.

Ainda em relação a essas denúncias de metas abusivas e abusividade de gestores, a reclamante ressalta que as referidas práticas também eram protagonizadas pelo diretor médico da clínica, o médico João Gabriel Ramos.

Outro ponto sinalizado pela denunciante foi que ela e outros funcionários da Clínica Florence trabalharam “durante a pandemia, mas sem a devida proteção dos equipamentos individuais”. O Sindisaúde, inclusive, move uma ação civil pública contra a Clínica cobrando direitos dos funcionários, entre eles um adicional de 40%.

PEDIDOS NA JUSTIÇA

No ação trabalhista, que tramita na Vara do Trabalho de Salvador / TRT 5ª Região, a reclamante requer “indenizações por danos morais, materiais, e pensão mensal vitalícia ou sucessivamente até o término da incapacidade, que foram constatados na Autora ao longo do vínculo empregatício com a Reclamada e com isso a declaração de que é portadora de doenças ocupacionais equiparada a acidente de trabalho, que foram adquiridos e agravados ao longo do vínculo empregatício com a Reclamada”.

A autora da ação pede a condenação da Clínica Florence por danos morais, no valor de R$ 50 mil, em “razão do acometimento e agravamento da doença ocupacional”. Pede, também, “permanência do Plano de Saúde médico/hospitalar, de forma vitalícia ou até a recuperação da capacidade,”

Entre os outros pedidos da acusação, estão o de pagamento de danos materiais, pensão vitalícia “a ser pago mês a mês, contado a partir da Estabilidade e até o final da sua vida ou incapacidade, por conseguintes doenças ocupacionais que foram constatadas na autora ao longo do vínculo empregatício” e indenização por danos materiais “resultantes de contínuos tratamentos de ordem médica a que tem de se submeter, que abrange os danos materiais na modalidade dano emergente, ou seja, despesas pretéritas, presentes e futuras, suportadas pelo Reclamante com a manutenção do plano”

O advogado André Luiz Mascarenhas Freire, que defende os interesses da denunciante, criticou, em entrevista ao Noticiário Baiano, o posicionamento da Clínica Florence: “É lamentável que em pleno ano de 2025, em que o cuidado com a saúde emocional ganha cada vez mais destaque, tenhamos que nos deparar com situações como essas em que empresas ferem o básico da sua função social ao se colocarem diante de uma sociedade com prestadora de serviços, e na prática prestam serviços inadequados e irregulares sem qualquer cuidado ou empatia com seus próprios colaboradores, especialmente dentro da área da saúde”.

Ainda de acordo com Freire, trata-se de “uma situação que precisa ser divulgada para que gestores que pensem em conduzir suas empresas com esse mesmo objetivo possam ter conscientização, bem como os órgãos e o Ministério Público do trabalho passem a tomar nota desse fato”.

PSIQUIATRA EXPLICA

A psiquiatra Sandra Peu afirmou ao Noticiário Baiano que a Síndrome de Burnout “é um conjunto de sinais e sintomas que podem estar presentes em diferentes doenças mentais, porém, necessariamente, acontecem pela relação do indivíduo com o seu trabalho”.
A especialista alerta que situações de trabalho nas quais as relações interpessoais são hostis, “quando não existe reconhecimento das ações e proposições positivas, a competitividade suscita conflitos interpessoais ou existe assédio moral ou sexual, representam estressores significativos para o trabalhador e geram maior propensão a desencadear a Síndrome de Burnout”.

Sandra reitera que processos de trabalho que não respeitam as limitações humanas ou desencadeiam despersonalização do indivíduo na execução da atividade também podem ser fatores de adoecimento. “Como exemplo, aponto a exigência descabida de produtividade e metas inatingíveis, atividades repetitivas esvaziadas de significado, jornadas de trabalho exaustivas, privação de sono ou mudanças frequentes nos horários de sono e falta de recursos para execução das atividades laborais”, destaca.

Sandra Peu explica que chegou a hora de procurar um psiquiatra “quando a relação da pessoa com seu trabalho passa a desencadear alguns sintomas, como ansiedade, angústia, presenteísmo, tristeza, falta de motivação, alterações no sono e apetite, dores e alterações sistêmicas ligadas ao mecanismo de resposta ao estresse, (como aumento da pressão arterial e palpitações), irritabilidade fácil, dificuldade de memória e atenção e sensação de exaustão”.

O QUE DIZ A DENUNCIADA

Procurada pela reportagem, a Clínica Florence confirmou que tem conhecimento das duas ações trabalhistas movidas pela ex-colaboradora, ambas em trâmite na Justiça do Trabalho. A empresa também afirma que contestou as ações:

“As alegações feitas nas ações foram devidamente contestadas, por não refletirem a realidade da instituição. Até o momento, não há qualquer prova que sustente as acusações feitas, inclusive as de assédio. Um dado contundente é a nota de 4,2 na pesquisa de Pulso, que mede a satisfação e lealdade dos colaboradores em relação à empresa onde trabalham – a nota máxima é 5. Isso reforça que a Clínica Florence atua sob constante fiscalização dos órgãos reguladores e segue pautada pelo respeito às leis, à ética e à valorização das pessoas. Seguiremos prestando todos os esclarecimentos no âmbito adequado (o judicial) e reafirmamos nosso compromisso com um ambiente de trabalho seguro, justo e respeitoso para todos. Ressaltamos que os processos não tramitam sob segredo de justiça e estão disponíveis para consulta pública”.

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