Entre aplausos e rejeição: o que a morte de Netinho revela sobre nós?

A morte do cantor Netinho, aos 60 anos, nesta terça-feira (13), em Salvador, após uma luta contra o câncer, encerrou uma trajetória que ajudou a escrever alguns dos capítulos mais importantes da música baiana. Mas, além das homenagens e da saudade, sua partida também trouxe à tona uma reflexão um tanto quanto incômoda: até onde vão os limites das nossas divergências políticas? E em que momento discordar de alguém passa a significar negar sua história e até sua humanidade?
Netinho foi um dos nomes que ajudaram a popularizar a axé music no Brasil. À frente da Banda Beijo e também em carreira solo, levou a música baiana para diferentes regiões do país. Quem nunca cantou ou ouviu os versos de “Milla”, “Menina” ou “Fim de Semana”, sucessos que marcaram sua carreira? São músicas que atravessaram gerações e continuam embalando festas e carnavais até os dias de hoje.
Mas a trajetória de Netinho também foi marcada por polêmicas, sobretudo nos últimos anos. Em 2018, o cantor declarou apoio a Jair Bolsonaro e passou a manifestar publicamente, nas redes sociais, posições alinhadas à direita. Seu posicionamento político, no entanto, decepcionou parte dos fãs, especialmente aqueles com visões mais progressistas e que defendem pautas associadas à esquerda. Algumas de suas declarações, inclusive sobre a comunidade LGBTQIA+, provocaram críticas e ampliaram o distanciamento de parte do público que antes o admirava. Vale lembrar que, em 2008, o próprio artista se declarou bissexual em uma entrevista à revista Quem, ocasião em que afirmou gostar de “meninos e meninas”.
E aqui cabe uma observação importante: ninguém é obrigado a concordar com as escolhas políticas de um artista, muito menos a continuar admirando alguém cujas declarações contrariem seus próprios valores. Eu mesmo discordei de alguns posicionamentos e declarações de Netinho. E não vejo problema algum nisso. Discordar faz parte, assim como questionar e criticar aquilo que não corresponde ao que acreditamos.
O que chama atenção, entretanto, é quando essa rejeição ultrapassa o campo das ideias e passa a atingir a própria pessoa.
Após a notícia da morte de Netinho, enquanto artistas como Ivete Sangalo, Claudia Leitte e Alinne Rosa prestaram homenagens ao cantor, comentários ofensivos também circularam nas redes sociais. Em meio ao clima da disputa eleitoral do segundo turno para a Presidência da República, houve quem ironizasse sua partida com comentários de cunho político. Uma situação que nos leva a uma pergunta: até onde vai o nosso ódio?
É possível reconhecer que Netinho fez, sim, declarações polêmicas, discordar de seus posicionamentos e, ainda assim, lamentar sua morte. Uma coisa não anula a outra. Não é preciso mudar de opinião sobre alguém para reconhecer que sua partida merece respeito.
As homenagens de colegas de profissão, assim como o silêncio de outros artistas nas redes sociais, também não deveriam servir como régua para medir sentimentos ou posicionamentos. Publicar uma despedida é uma escolha. Não publicar também.
Talvez a polarização política tenha nos levado a um ponto em que já não conseguimos enxergar as pessoas para além de suas preferências eleitorais. E isso deveria nos preocupar. Afinal, será que estamos deixando nossas diferenças políticas falarem mais alto do que o respeito que devemos ter uns pelos outros?
Porque, quando a política nos faz celebrar a morte de alguém, talvez já tenhamos perdido algo muito maior do que uma eleição: a capacidade de reconhecer a humanidade de quem pensa diferente.



