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Entre o L, o 44 e o silêncio: afinal, artistas baianos têm que dizer em quem votam?

Por Master•
Entre o L, o 44 e o silêncio: afinal, artistas baianos têm que dizer em quem votam?
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Faltam dois dias para as eleições e, a essa altura, você provavelmente já decidiu em quem vai votar. Ou, pelo menos, deveria. Mas parece que, além dos nossos próprios candidatos, existe uma curiosidade que reaparece religiosamente a cada quatro anos: afinal, em quem os famosos votam?

Nesta sexta-feira (2), essa mistura entre entretenimento e política ganhou um capítulo especial na Bahia. O Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA) determinou a suspensão do show de Léo Santana na inauguração do Centro Cultural Novo Mané Dendê, no Subúrbio Ferroviário de Salvador. A decisão liminar atendeu parcialmente a uma representação que aponta suposta conduta vedada a agentes públicos e abuso de poder político.

Por falar no GG, inclusive, ele já escolheu um lado nesta eleição. No último dia 19, durante uma festa em Salvador, o cantor levantou uma bandeira com o número 44 e puxou um coro de “faz o 44”, em apoio a ACM Neto, candidato ao Governo da Bahia pelo União Brasil.

Apesar disso, não há nada de novo nessa relação. Antes mesmo de transformar apoio em gesto no palco, Léo Santana já havia emprestado a voz à política. Em 2016, foi dele a interpretação de “Neto outra vez”, jingle da campanha que reelegeu ACM Neto prefeito de Salvador. Quatro anos antes, em 2012, outro nome de peso do pagodão baiano já havia feito o mesmo: Márcio Victor, do Psirico, interpretou um dos jingles da campanha que levou Neto pela primeira vez ao Palácio Thomé de Souza.

Léo continuou transitando por esse universo. Em 2020 e 2024, também colocou a voz em jingles das campanhas de Bruno Reis à Prefeitura de Salvador.

E tem um detalhe curioso nessa história. Apesar da relação antiga com ACM Neto e de ter voltado a declarar apoio ao candidato nesta eleição, no ano passado Léo emprestou sua imagem e seu dom vocal à campanha “Uma obra gigante”, de divulgação do VLT de Salvador, obra de responsabilidade do Governo da Bahia, comandado por Jerônimo Rodrigues.

E, ainda falando do pagodão baiano, outros nomes do gênero musical também já se manifestaram publicamente sobre os números que vão apertar na urna no dia 4 de outubro. No último 7 de Setembro, durante uma apresentação em Juazeiro, Igor Kannário interrompeu o show para deixar clara sua preferência na disputa presidencial. “Só pra avisar, eu sou nove dedos toda vida”, disse o Príncipe do Guetto, declarando apoio à reeleição do presidente Lula (PT). Kannário, vale lembrar, também já experimentou a política do outro lado do palco: foi vereador de Salvador e deputado federal pela Bahia.

O posicionamento também chama atenção pela virada política do artista. Kannário já foi aliado de ACM Neto e integrou por anos o grupo político liderado pelo ex-prefeito de Salvador.

E até antigos desafetos do pagodão acabam em lados diferentes da disputa. Chiclete Ferreira, cuja desavença com Kannário já rendeu capítulos fora dos palcos, usou as redes sociais para declarar voto em Flávio Bolsonaro (PL) e fazer críticas ao presidente Lula.

Já O Kannalha colocou o molho, ou melhor, a voz, no jingle “Jero Tem o Molho”, na campanha de reeleição do governador Jerônimo Rodrigues (PT). A canção adapta justamente uma expressão associada ao artista e a leva diretamente para o universo eleitoral.

E engana-se quem pensa que a “Presidenta da Bahia”, leia-se Ivete Sangalo, ficou de fora do debate nacional. Durante um show da turnê Ivete Clareou, em Belo Horizonte, parte do público começou a gritar o nome de Lula. Ivete respondeu com um sorriso e um “L” feito com a mão. Bastaram alguns segundos para o vídeo atravessar as redes sociais e chegar à Justiça Eleitoral. O senador Carlos Viana (PSD-MG) acionou o Tribunal Superior Eleitoral alegando possível propaganda eleitoral irregular e “showmício”.

Seja fazendo o L, o 44 ou simplesmente ficando em silêncio, parece que ser artista em ano eleitoral ganhou uma obrigação extra: responder à pergunta “e aí, vai votar em quem?”.

Vale lembrar que essa cobrança não começou agora. Em 2018, talvez tenha vivido um de seus momentos mais emblemáticos. Daniela Mercury lançou o desafio #EleNão contra a candidatura de Jair Bolsonaro e chamou publicamente outros artistas a se manifestarem.

Claudia Leitte, particularmente, virou alvo de uma cobrança que atravessou aquela eleição. Centenas de comentários passaram a pedir que ela dissesse publicamente de que lado estava. Quando questionada diretamente sobre o assunto, prefere despistar.

Do outro lado, há quem nunca tenha feito muito mistério. Daniela Mercury voltou a declarar publicamente seu apoio a Lula nesta eleição. Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia também estão entre os artistas baianos que manifestaram apoio à reeleição do presidente.

E talvez nenhum exemplo mostre tão bem como cultura e política podem se misturar quanto o de Margareth Menezes. Uma das vozes mais conhecidas da música baiana atravessou a fronteira entre os dois mundos e, desde 2023, ocupa o cargo de ministra da Cultura no governo Lula.

Só que existe uma pergunta anterior a todas essas declarações: por que queremos tanto saber?

Eu confesso que sempre achei curioso esse movimento. Gostar da música de alguém não significa necessariamente compartilhar suas opiniões. Ao mesmo tempo, seria ingênuo fingir que artistas não têm influência. Têm milhões de seguidores, mobilizam multidões e ajudam a colocar assuntos na conversa pública. Quando uma personalidade levanta uma bandeira, grava um jingle ou faz um gesto no palco, aquilo evidentemente alcança muito mais gente do que o posicionamento político de um cidadão comum.

Mas alcançar é a mesma coisa que convencer? Talvez cada vez menos.

Uma análise publicada pela Folha de S.Paulo nesta reta final aponta justamente uma mudança nas eleições de 2026: as grandes celebridades perderam parte do protagonismo político que tiveram em pleitos anteriores. Segundo especialistas ouvidos pelo jornal, mudanças na dinâmica das redes fizeram crescer o peso de conteúdos de humor, inteligência artificial e influenciadores de médio porte. O risco de perder público também ajuda a explicar por que algumas celebridades preferem não declarar voto.

E talvez esteja aí a parte mais interessante dessa história. Durante muito tempo discutimos se um artista seria capaz de influenciar o voto de seus fãs. Hoje, talvez seja melhor perguntar se não são os próprios fãs que tentam influenciar o comportamento dos artistas.

Se declara um voto diferente do meu, “decepcionou”. Se não declara, “está em cima do muro”. Se declara o mesmo, “sempre soube que era sensato”. A relação de admiração começa, de repente, a exigir uma espécie de compatibilidade ideológica.

Mas, afinal, precisa disso?

Eu acho que não. Pelo menos não quando a cobrança é para saber em quem alguém vai votar. O voto é secreto e esse direito também vale para quem sobe no palco, aparece na televisão ou reúne milhões de seguidores nas redes sociais. Claudia Leitte, Ivete Sangalo ou qualquer outro artista não é obrigado a dizer qual número vai apertar na urna.

Mas existe um outro lado dessa conversa que também não dá para ignorar.

Quando um fã cobra de Claudia Leitte, por exemplo, um posicionamento sobre determinado assunto político, talvez a pergunta nem seja apenas “em quem você vai votar?”. Muitas vezes, o que ele quer saber é o que pensa alguém que admira, acompanha e que, de alguma forma, influencia milhões de pessoas. E acho que existe uma diferença importante aí.

Artista não tem obrigação de revelar o voto. Mas também não dá para fingir que sua voz tem o mesmo alcance da nossa. Uma fala, um silêncio, uma bandeira levantada no palco ou até um simples gesto com a mão pode virar notícia, movimentar as redes e colocar um assunto no centro da discussão. Foi exatamente o que aconteceu várias vezes nesta eleição.

Por isso, eu entendo a cobrança por posicionamentos. Política não se resume ao número que a gente aperta na urna. Ela passa por racismo, violência, cultura, educação, direitos, liberdade e por tantos outros assuntos que fazem parte da vida de quem está do outro lado do palco também.

Talvez o problema comece quando essa cobrança deixa de ser um convite ao posicionamento e vira uma exigência para que o artista pense exatamente como quem o admira.

No fim das contas, ele pode falar. Pode não falar. Pode dizer em quem vota. Pode guardar o voto para si. E nós também podemos concordar, discordar, continuar ouvindo ou até deixar de ouvir. Faz parte.

No domingo, Caetano vota. Ivete vota. Léo vota. Daniela vota. Kannário vota. Claudia vota. Eu voto. Você vota.

Alguns vão contar para todo mundo. Outros vão preferir guardar para si.

E tudo bem. Porque, por maior que seja o palco, o cachê ou o número de seguidores, na hora em que a urna confirma o voto, o de cada um continua valendo exatamente um.