Coluna: Conviver com gente chata adoece

Escrito por Terena Cardoso

Eu nunca esqueço de quando, em um dos meus primeiros estágios, precisei conviver com uma chata. Ela era mais velha, do tipo amargurada. Me telefonou para perguntar alguma coisa e eu respondi com um “ok, mando já”. No dia seguinte, fui chamada pelo meu superior para avisar que a secretária de seu fulano se sentiu maltratada por mim ao telefone porque eu desliguei sem dar “tchau”.

Tudo bem. Talvez eu devesse acrescentar, ao final da chamada, um “bj, tchau”. Mas ela também poderia ter falado comigo, ou até relevado? Não sei. O que sei é que gente chata definitivamente é um saco, e adoece pra caramba.

Você passa a se explicar demais. A medir palavras. A antecipar reações. A entrar em ambientes já se preparando para o conflito.

Até que percebe que aquela pessoa, sem dizer uma única palavra, já está ocupando espaço demais dentro da sua cabeça.

E aí talvez seja hora de parar de tentar convencer o chato de que ele é chato.

Algumas pessoas não precisam entender você.

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Precisam apenas deixar de ter acesso irrestrito à sua paz.

É aquela pessoa que precisa corrigir tudo, interpretar tudo, ter a última palavra, encontrar uma inadequação em cada comportamento alheio. Não é sobre o “tchau” que você não deu. É sobre a necessidade de transformar um detalhe em prova de desrespeito, porque assim se consegue um pequeno lugar de poder.

E conviver com isso cansa.

A psicologia sabe que relações não são apenas encontros entre duas pessoas, mas sistemas de repetição. Quando alguém provoca, o outro reage; a reação alimenta a provocação; a provocação justifica uma nova reação. E, quando percebemos, estamos presos em uma dinâmica que parece maior do que qualquer episódio que a originou.

O mais curioso é que a pessoa chata quase nunca se considera chata. Ela se considera justa, correta, exigente, sincera. O problema, evidentemente, são os outros.

Talvez uma das maiores formas de maturidade seja justamente perceber quando estamos usando a nossa “razão” como instrumento de desgaste. Porque ter razão o tempo inteiro pode ser uma maneira bastante sofisticada de não precisar rever a si mesmo.

E talvez seja esse o verdadeiro perigo de conviver com gente assim: não é apenas o que ela faz com você. É o risco de, pouco a pouco, você começar a funcionar dentro da lógica dela.

Até porque não acabou aí. Começaram as perseguições, a fofoca, a cara feia, a não responder mais o “bom dia”. Se eu me comportei de forma imatura, definitivamente ela quis o meu lugar e o tomou com prazer. Só que imaturidade em gente mais velha não brilha, né? Melhor que deixemos isso com as crianças e olhe lá.

Existe uma diferença importante entre ser uma pessoa difícil e viver em estado permanente de implicância. A primeira pode estar atravessando um momento ruim. A segunda transforma o próprio desconforto em método de convivência.

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