Ana Nery: Primeira enfermeira do Brasil foi baiana e enfrentou barreiras que ainda desafiam a profissão

Da Guerra do Paraguai aos hospitais atuais, o legado da baiana segue inspirando profissionais e ajudando a compreender os desafios enfrentados pela enfermagem brasileira

Em um dos períodos mais sangrentos da história da América do Sul, uma mulher baiana desafiou os limites impostos pelo seu tempo. Enquanto a Guerra do Paraguai (1864-1870) deixava um rastro de destruição, ela decidiu seguir na direção oposta e permanecer ao lado dos feridos. Em hospitais improvisados, enfrentou epidemias, escassez de recursos, jornadas exaustivas e o preconceito por estar além da vida doméstica. Assim, construiu um legado de coragem e dedicação que atravessou gerações. Essa é Anna Justina Ferreira Nery, natural de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, pioneira da enfermagem no país e patrona da profissão.

“Ela nasceu em Cachoeira e casou com Isidoro Nery, com quem teve três filhos. Após a morte do marido, mudou-se para Salvador com a família. Um de seus filhos já era médico, formado pela primeira escola de medicina do Brasil; outro cursava Medicina; e o terceiro seguia carreira militar”, descreveu o museólogo Thierre Oliveira, responsável pelo Museu Nacional de Enfermagem, inaugurado em 20 de maio de 2010 em Salvador.

“Em um contexto marcado por conflitos, Ana Nery se destacou ao auxiliar soldados nos acampamentos militares, prestando cuidados médicos aos combatentes feridos. Ela encontrou condições de extrema precariedade nos hospitais de campanha durante a guerra, em um cenário que era marcado pela falta de recursos materiais e humanos, além da escassez de higiene básica e superlotação, quando havia uma rápida propagação de doenças graves, como cólera, febre tifóide, malária, varíola e disenteria”, pontuou o historiador Iure Alcântara.

É importante ressaltar que a Guerra do Paraguai foi considerada o maior conflito armado da América do Sul, envolvendo o Paraguai contra a Tríplice Aliança, formada por Brasil, Argentina e Uruguai. Motivado por disputas políticas e territoriais na região do Rio da Prata, o confronto deixou milhares de mortos, cidades destruídas e aumentou a necessidade de atendimento médico aos soldados feridos nos campos de batalha.

Uma trajetória marcada pela coragem

Muito antes da criação das escolas de enfermagem e da regulamentação da profissão, Ana Nery (1814-1880) tomou uma decisão que mudaria a história da saúde no Brasil: se voluntariou para cuidar dos soldados feridos, conforme apontam informações do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen). “Mesmo tendo seu filho (Justiniano) morto no conflito, ela não cessou em servir o seu país”, lembrou Iure, o historiador, sobre o amor dela à pátria.

“É importante lembrar que Ana Nery já era uma mulher dedicada ao cuidado. Como mãe e responsável pelo lar, compreendia a importância da limpeza e da organização dos ambientes, sabendo que espaços mais higienizados favoreciam melhores condições de saúde, especialmente em um contexto de guerra”, recordou Thierre, o museólogo.

Em 1865, a baiana deixou Salvador após ter o pedido aceito pelo governo imperial. “Naquele momento, ela tinha 52 anos de idade, uma idade considerada avançada para os padrões sociais da época, o que torna sua decisão ainda mais marcante na história da enfermagem brasileira”, descreveu o museólogo. Mais à frente, em Assunção, capital paraguaia, após condições precárias nos hospitais militares, ela organizou uma enfermaria com recursos próprios. Ao fim da guerra, em 1870, retornou ao Brasil com três órfãos que acolheu.

“Ela visitou diferentes locais e desempenhou um papel semelhante ao de Florence Nightingale, considerada a fundadora da enfermagem moderna. Assim como Florence, que atuou na Guerra da Crimeia, Ana Nery chegou a um cenário de conflito e contribuiu para transformar a rotina dos hospitais de campanha, promovendo cuidados básicos que melhoraram significativamente as condições de assistência nos hospitais de sangue, como eram conhecidos os hospitais de guerra da época”, continuou o museólogo.

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Pela atuação no conflito, recebeu medalhas de prata Geral de Campanha e Humanitária de Primeira Classe, além de uma pensão vitalícia concedida por Dom Pedro II. Dez anos depois, no Rio de Janeiro, morreu. Seu nome foi consolidado em 1926, quando a primeira escola oficial de enfermagem de alto padrão do país recebeu seu nome. Ainda, foi oficialmente reconhecida como heroína nacional, inscrita no livro dos heróis da Pátria, em 2009, e recebeu o título de “Mãe dos Brasileiros”, em reconhecimento ao seu legado de solidariedade, cuidado e compromisso com a vida. “Compreendemos que a História e a Memória atravessam a sociedade, e na trajetória de Ana Nery não foi diferente”, continuou Iure.

A atuação dela permanece como referência para profissionais que dedicam a vida ao cuidado. Entre eles está a enfermeira emergencista e de atenção domiciliar, Daniela Noia, que atua na formação de novos vos profissionais, tendo atuado como preceptora e professora da Escola Técnica Ana Nery, fundada em 2002, com sede no bairro de Água de Meninos, em Salvador.

Para Daniela, o legado da baiana tem inúmeros pontos que estão presentes na enfermagem atual, como, principalmente, a relação da humanização ao paciente. “Hoje o paciente tem direito, como forma de protocolo e de cuidados. A coragem de assistir uma paciente, por si só, já é um ato heroico. Ana Nery foi além e quis fazer a enfermagem ser vista, vivendo uma guerra, e assim aperfeiçoando as práticas da profissão em campo”, disse a profissional.

“É justamente desse legado que a gente busca inspiração, principalmente na questão do cuidado contínuo, de se dedicar ao máximo dentro das possibilidades que temos”, acrescentou o médico transplantador renal e nefrologista pediátrico, Rodrigo Duarte, que atua em uma instituição que leva o nome da primeira enfermeira do Brasil, o Hospital Ana Nery.

Hospital Ana Nery (HAN)

Muitos soteropolitanos podem conhecer ou ter ouvido falar, mas nem imaginam quem foi a mulher e a história por trás do nome. Fundado em 1964, em Salvador, segundo o artigo O Hospital Ana Nery e sua busca histórica pela qualidade do serviço de saúde, a instituição vem se consolidando como uma das principais unidades públicas de saúde da Bahia, ligado ao Sistema Único de Saúde (SUS) e tornando-se referência em serviços de alta complexidade.

De acordo com Duarte, o hospital foi criado com foco na cardiologia clínica de adultos e, ao longo dos anos, ampliou sua assistência com a incorporação da cardiologia pediátrica e de outras especialidades, como nefrologia, cirurgia vascular, hemodinâmica e transplante de órgãos. Atualmente, o transplante renal se destaca entre os principais serviços da unidade.

“A nossa principal missão é tentar oferecer o melhor de uma medicina inovadora implantando novas tecnologias e incorporando avanços que, muitas vezes, já são reconhecidos mundialmente dentro de um serviço público”, contou o médico da unidade, destacando a importância do espaço para desenvolver novas pesquisas e novos medicamentos. “Acredito que conseguimos fazer isso dentro das nossas limitações, como um serviço multidisciplinar, dando o melhor de nós e incorporando o máximo possível dos recursos que temos disponíveis”, continuou.

Os desafios da saúde, entretanto, ainda revelam obstáculos que atravessam gerações. Para o médico, assim como na época de Ana Nery, quando a falta de estrutura e as condições adversas marcavam os atendimentos, a realidade atual ainda impõe dificuldades aos profissionais, especialmente por atuarem no serviço público.

Desafios da enfermagem atual

A busca por reconhecimento e melhores condições de trabalho segue como uma das principais pautas da enfermagem brasileira. Presidente do Conselho Regional de Enfermagem da Bahia (Coren-BA), Davi Apóstolo destaca que parte das dificuldades enfrentadas pela categoria ainda dialoga com os desafios vividos por Ana Nery no século XIX. “Muitos dos desafios enfrentados por ela ainda persistem, especialmente em relação a valorização da enfermagem e o reconhecimento da importância desses profissionais”, afirmou.

Para quem vive na linha de frente, os desafios da profissão vão, portanto, além do reconhecimento e envolvem as condições oferecidas para exercerem o ofício com qualidade. “O grande desafio na atualidade é conseguir que as instituições de saúde reduzam a carga horária de trabalho, garantam o pagamento do piso da enfermagem e as gratificações conquistadas, dando prioridade à qualidade de vida da equipe de enfermagem, com salas de conforto, refeições dignas, prioridade na assistência e atendimento quando o profissional ficar doente, valorizando quem dá saúde à população”, protestou a enfermeira Daniela.

O historiador, por sua vez, evidencia que compreender a trajetória de Ana Nery também exige olhar para o cenário em que a profissão se desenvolveu e para as mudanças que moldaram a enfermagem até os dias atuais. “Em um contexto neoliberal, em que regulamentação da enfermagem ainda é uma questão de debate, se faz necessário usar o exemplo de Ana Nery para entender que a luta que se teve durante a guerra se faz presente em outras dimensões. Os profissionais precisam enfrentar longas jornadas de trabalho, condições precárias de atuação, baixa remuneração e ainda se esmerar para cuidar e salvar vidas em uma sociedade em que o adoecimento os interpela de diferentes formas”, analisou.

“Que o conhecimento do legado de Ana Nery ajude os governos a refletirem que essa área carece de valorização efetiva e é uma atividade política de contribuição para a história e o andamento do seu país”, complementou.

Em busca de dignidade

Dados do Coren-BA, atualizados em 20 de janeiro de 2026, apontam que o estado conta com 193.314 profissionais ativos. Desse total, 127.691 são técnicos de enfermagem, 53.598 enfermeiros, 12.022 auxiliares de enfermagem e três obstetrizes. As reivindicações da categoria refletem uma realidade ainda presente no cotidiano dos profissionais. Desafios como melhores condições para o exercício profissional, dimensionamento adequado das equipes e ambientes de trabalho seguros continuam entre as principais demandas acompanhadas pelo Conselho Regional.

“O Coren-BA atua fortalecendo a fiscalização, ampliando a qualificação profissional por meio dos programas Qualifica e Qualifica Digital e investindo na modernização dos serviços. Um exemplo é a implantação do SIGEN, que substituiu um sistema analógico por uma plataforma totalmente digital, tornando os processos mais ágeis e eficientes. Em breve, o Conselho também lancará o SIGEN 2.0. com novas funcionalidades para facilitar ainda mais a vida dos profissionais”, apontou o presidente do Conselho.

“Além disso, o Coren-BA apoia pautas importantes para a categoria, como o reajuste do piso salarial e a jornada de 36 horas vinculada ao piso, e mantém uma gestão reconhecida como a mais transparente entre os Conselhos de Enfermagem do Brasil”, acrescentou ele.

No mais, percebe-se que a trajetória da enfermagem brasileira foi construída por meio da coragem, dedicação e compromisso com o cuidado. O mesmo espírito que levou Ana Nery, uma mulher baiana, a enfrentar os limites de seu tempo, permanece vivo nos profissionais que, diariamente, lutam por valorização, respeito e condições dignas. A ‘herança’ deixada pela pioneira não pertence apenas ao passado, mas segue presente em cada enfermeiro, técnico e auxiliar que dedica sua vida à assistência e mantém viva a missão de transformar vidas e a saúde do Brasil.

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