Nosso poder de dedução está morrendo

Com a enxurrada de informações a que somos submetidos todos os os dias, as coisas chegam tão mastigadas que deduzir o que quer que seja, atualmente, tem sido raro.

Percebi isso lendo “Um Estudo em Vermelho”, de Arthur Conan Doyle, primeiro livro em que ele apresenta ao público Sherlock Holmes. Na história, o conhecido detetive conhece seu futuro parceiro, Dr. Watson.

Holmes olha para Watson por alguns segundos e diz, com naturalidade:

— “Você esteve no Afeganistão.”

Watson congela. Não fazia sentido. Eles haviam acabado de se conhecer. Ninguém tinha contado aquilo. Para Watson, era quase sobrenatural.

Ele pergunta:

— “Como diabos você sabe disso?”

E Holmes, quase decepcionado por ter que explicar, desmonta o mistério peça por peça.

Ele diz que observou:

  • a postura militar de Watson;
  • o bronzeado de alguém que esteve em clima quente;
  • a pele mais clara nos punhos, indicando que o bronzeado veio do sol forte;
  • o rosto abatido de alguém que sofreu doença ou ferimento;
  • o braço rígido, sugerindo uma lesão;
  • e o fato de que médicos militares britânicos eram frequentemente enviados ao Afeganistão naquela época.

Da soma desses pequenos indícios, Holmes conclui: “médico militar que serviu no Afeganistão.”

Eu ri e fiquei imaginando essa cena acontecendo com qualquer pessoa da atualidade, em um dia comum, dentro de um elevador. Ninguém mais deduz nada de ninguém, que dirá observar tantos detalhes.

A gente não olha mais para os olhos das pessoas, não ouve direito o que elas dizem, não observa mais nada. Sequer imagina que cada um está passando por seus perrengues diários. A gente só se preocupa com nós. Os nossos nós.

Indignada que meu poder de dedução pode estar morrendo, me prontifiquei a testá-lo: numa sala de espera para fazer exames, me pus a observar as pessoas. E deduzi um bocado de coisa. Se acertei ou não, não sei. Mas me senti ativa com isso novamente. E proponho que, se você também deseja, continuemos.

Porque, se a gente não está deduzindo mais nada do mundo afora, imagina o de dentro…

Confira os principais destaques do dia!

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